terça-feira, 20 de maio de 2014

Os suíços votam contra o salário mínimo a 3300 euros

Les Suisses votent contre le smic à 3300 euros





Artigo publicado no Jornal Libération
18/05/2014
Agence France Presse


Os suíços recusaram claramente, domingo, um salário mínimo único de 3.300 euros, que teria sido o mais alto do mundo, e rejeitaram, mais timidamente, a compra de 22 aviões de combate suecos Gripen.



Com um total de 76,3% dos votos, o povo varreu a introdução de um salário mínimo de 22 francos suíços a hora (18 euros), em torno de 4.000 francos brutos (3.300 euros) para 42 horas semanais (100%), segundo os resultados oficiais. Todos os 26 cantões da confederação se opuseram ao projeto.
Este salário mínimo teria sido o mais alto do mundo: ele é de 9,43 euros na França, 5,05 euros na Espanha e será, na Alemanha, de 8,50 euros a partir de 2015.
Para os sindicatos e partidos de esquerda, o custo muito elevado da vida na Suíça justificaria este salário mínimo de 4.000 francos suíços.
Mas uma grande parte da população temia que um tal salário favorecesse uma alta do desemprego, quase inexistente na Suíça (3,2% da população ativa em abril).


Contra este projeto, a direita, os meios agrícolas, o Parlamento e o governo tinham afirmado que um salário mínimo tão alto teria sido um perigo para o emprego e tinham afirmado que já existem salários mínimos em certos ramos profissionais.


Os Gripen devolvidos ao hangar
Após um longo suspense, os cidadãos helvéticos finalmente rejeitaram a compra de 22 novos aviões de combate suecos Gripen fabricados por Saab.

Contrariamente à questão do salário mínimo, os suíços se mostraram divididos sobre a compra dos Gripen.

Enquanto os cantões romanches e o Tessin (cantão italofone) recusaram a compra dos 22 aviões suecos, a maioria dos cantões alemânicos – tradicionalmente mais conservadores – apoiou o projeto do governo. Mas isso não teria sido suficiente.
O governo suíço e o Parlamento queriam comprar os Gripen, estimando que uma parte dos aviões de combate que as forças armadas dispõem estariam “obsoletos”.
A fim de financiar esta aquisição, o Parlamento criou um fundo alimentado pelas despesas ordinárias ligadas ao armamento para repartir, por um período de 11 anos, o custo de 2,56 bilhões de euros necessários a esta compra.
Contrários ao projeto, a esquerda e os Verdes afirmaram que a fatura seria bem mais pesada e que a Suíça está rodeada de países amigos. O avião, cuja variação E encomendada só existe no papel, não é bom o bastante, estimaram seus detratores, sublinhando que será sempre tempo de reconsiderar uma outra encomenda.
Resta a saber o que o governo vai fazer a partir de agora. Pois como havia martelado várias vezes o ministro da defesa, Ueli Maurer: “não há um plano B”.


As Forças aéreas suíças dispõem atualmente de 86 aviões de combate – 32 F/A-18, que serão utilizados até 2030 pelo menos, e 54 F-5 Tiger que, segundo o governo, “não possuem radar com bom rendimento, não podem utilizar todos os tipos de mísseis guiados e só podem ser usados de dia e com boa visibilidade”.

terça-feira, 22 de abril de 2014

"Shoah e Ruanda, referências comuns"

«Shoah et Rwanda, des références communes»

Artigo publicado no site do Jornal Libération
28/03/2014
Por Catherine CALVET e Maria MALAGARDIS


IDEIAS

Vinte anos após o genocídio, o historiador Jean-Pierre Chrétien analisa a lógica que conduziu ao projeto de exterminação dos tútsis.

Cerca de um milhão de mortos em apenas cem dias: o genocídio da minoria tútsi, que se passou em Ruanda há exatamente vinte anos, constitui a mais fulgurante tentativa de exterminação da História contemporânea. Por que este acontecimento continua tão mal conhecido, e tão pouco reconhecido? É uma das interrogações à qual tenta responder o historiador Jean-Pierre Chrétien em seu último livro, Rwanda, Racisme et Génocide, l'idéologie hamitique - Ruanda, Racismo e Genocídio, a ideologia hamítica (1). Este especialista da África dos Grandes Lagos analisa em seu livro também as razões que tornaram possível um tal massacre. Pois foram necessários anos de propaganda, de falsificação da História, imposta especialmente pelo colonizador, e a estigmatização do Outro para convencer as mentes da necessidade do pior. No fundo, a História se repete, e o historiador não deixa de sublinhar os paralelos perturbadores entre o antissemitismo na Europa que conduziu à Shoah e o que se passou em 1994 nesse pequeno país no coração da África.



Quais são as origens deste genocídio?
O genocídio ruandês não foi improvisado em função de uma conjuntura. Não era tampouco uma fatalidade inscrita nos genes da população ruandesa: é preciso parar de ter uma visão etnográfica da África e reduzir esta tragédia a um massacre interétnico como se escuta ainda muito comumente. O reconhecimento de um genocídio pela comunidade internacional (como é o caso em Ruanda) não depende do número de mortos mas de um projeto, de uma lógica de exterminação que se inscreve na duração. Ora, no caso ruandês, a ideologia racista que vai se impor encontra também raízes na Europa. Nós encontramos as mesmas referências, os mesmos autores que estão na origem da Shoah na Europa. As teorias de Gobineau também influenciaram os colonizadores de Ruanda. Os Ocidentais do século XIX possuíam uma grade de leitura do mundo “racializada”.
Você invoca a ideologia hamítica. Quem são os hamitas?
Tal noção, que aparece no século XIX, servia para designar os africanos que se supunha ter origem extra africana. Nos fantasmas ocidentais que se exportam para a África, os hamitas representariam assim uma “raça superior”. Ao descobrir um reino muito organizado, uma sociedade hierarquizada e sofisticada, crente em um Deus único, coisa rara na África, os primeiros Brancos que chegam em Ruanda não podem conceber que se trata de uma realidade africana. Eles vão criar o mito do tútsi hamita vindo de alhures. Em realidade, essa visão de raça se impôs em toda a África. Era preciso classificar, etiquetar. E teorizar esta visão da África. O antropólogo britânico Charles Gabriel Seligman, por exemplo, vai desenvolver a ideia em As Raças na África (publicado em 1930), que os pretensos hamitas difundiram seus saberes e uma organização política avançada sobre o continente. Portanto, existe um “verdadeiro negro” e um “falso negro”. O verdadeiro negro corresponde aos preconceitos racistas utilizados para justificar o tráfico. Essa classificação será sistemática na África oriental e austral. Próximo do oceano Índico e da península arábica, essa região conheceu movimentos e misturas de populações, mas é como se analisássemos o movimento dos Bonnets rouges (os Bonés vermelhos) através da presença celta. Encontramos também esta tese racista em Gobineau, em seu Essai sur l'inégalité des races humaines – Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (em 1853), teria havido um primeiro “escoamento branco” (onda de povoamento de origem europeia), da qual se originariam os hamitas. Desde as primeiras horas da colonização, os tútsis foram classificados em uma categoria “superior” e os hutus se tornaram os sub humanos.
Enquanto que no início nem hutus nem tútsis são verdadeiras etnias?
Isso mesmo, são castas transformadas em etnias pelo colonizador fascinado pela monarquia. Ora, naquela época, somente 15 a 20% dos tútsis eram aristocratas e era possível passar de hutu a tútsi em função de seu lugar na sociedade. Aliás, a palavra etnia é bastante recente, ela substituiu os termos “raça” ou “tribo” nos anos 1970. Assim a clivagem social no seio de uma população que dividia a mesma língua, a mesma cultura e uma mesma história é transformada em uma separação estanque entre dois pseudo povos. As ferramentas intelectuais desta clivagem são artificiais e antigas.
Segundo a ideologia hamítica, os tútsis eram, portanto, vistos de modo positivo?
Houve várias mudanças bruscas. O que denotava, no início, uma certa admiração transformou-se em seguida em sinal de uma desconfiança, os indígenas que vão resistir à colonização são justamente esses Hamitas favorecidos no início. Os missionários tiveram um grande papel na construção desses preconceitos. Eles chegam a explicar que os hamitas são os herdeiros de um povo que fugiu quando da queda da torre de Babel. Eles teriam assim pertencido a uma civilização superior, mas teriam sido punidos por sua arrogância. É o reflexo de uma ideologia, pois, ao mesmo tempo, os manuais dos missionários são empregados para sustentar a ideia de uma civilização urbana que se perverte. Mesmo se os tútsis são considerados como superiores e mais inteligentes, e portanto favorecidos inicialmente pelo colonizador, este último insinua desde o início que eles possuem hábitos suspeitos em contraste com a simplicidade dos hutus. Como diz muito bem o jornalista Jean Hatzfeld (antigo jornalista de Libération) os tútsis não têm nada a ver com os judeus, mas se encontram em uma situação similar. Do antissemitismo ao “antitutsismo”, é possível encontrar pistas comuns. Há também um efeito espelho entre a ideologia racista dos anos 1930 na Europa (arianos contra semitas) e esta construção racial transportada para Ruanda (hutus contra tútsis)... São ideologias complexas, com fantasmas e mudanças identitários múltiplos. O colonizador não domina tudo. As sociedades colonizadas instrumentalizam à sua maneira certas ideias ocidentais que os colonizadores quiseram lhes aplicar. A aristocracia ou as elites tútsis da Ruanda dos anos 50 levam uma parte da responsabilidade, elas se deixaram seduzir por esta pretensa superioridade. E os hutus, que tomam o poder em 1959, não contra o colonizador mas contra o tútsi, vão utilizar com vantagem para si desta herança colonial.
O genocídio é também produto de uma situação sócio econômica?
No início dos anos 90, a única esperança para Ruanda, então em plena crise, teria sido uma verdadeira revolução social, mas o genocídio bloqueou tudo. O racismo como o nazismo permite permanecer no poder sem questionar nem o capitalismo nem algum funcionamento econômico ou social injusto.
A dimensão social continua primordial, é o que permitiu a legitimação da visão racial. É assim que a luta das raças suplantará a luta de classes... Lá, ainda, encontraremos a leitura colonial, Ruanda foi administrada em termos de “raças”. E é quando essa linguagem das “raças” se junta a um discurso social que a situação se torna explosiva. Esse esquema simplificador descrevia os tútsis de “raça” hamítica conquistadora face aos hutus de “raça” bantu, os hutus representavam o terceiro estado e os tútsis eram os aristocratas. Essa visão não era somente veiculada pelos detentores de um poder enfraquecido em Ruanda, constituía também o molde de leitura do presidente François Mitterrand. Assim, no início, os tútsis eram talvez vistos como inteligentes, racionais, como aqueles a quem se podia delegar o poder. Depois, nos anos 1950, era melhor se fiar nos hutus, que representavam o “verdadeiro” povo ruandês, e desconfiar dos tútsis, descendentes dos “aristocratas”. As referências à revolução francesa são evidentes. Mas em Ruanda, quando o poder bascule em favor dos hutus à independência, os privilégios não são abolidos, como na noite do 4 de agosto de 1789, eles apenas trocam de campo. E as menções étnicas nas carteiras de identidade introduzidas pelos belgas em 1930 são mantidas e vão servir para estigmatizar os tútsis. As teses dos historiadores do século XIX vão justificar a inelutabilidade do genocídio tendo por fundo uma desesperança social e econômica que coloca a sociedade ruandesa em um impasse.


Por que se fala ainda de “massacres interétnicos” com relação a Ruanda, de “conflito entre hutus e tútsis”?
É uma visão herdada da época colonial que nos impede de analisar verdadeiramente os contextos político e ideológico da África contemporânea. A política estrangeira consiste ainda em “gerenciar” as etnias. Não viria a nosso espírito a ideia de misturar a ex-Iugoslávia, Ucrânia e Bélgica; deveria ser o mesmo para Ruanda, a República Centro-Africana e o Mali. Não se pode reduzir todos os conflitos a problemas étnicos. É a preguiça intelectual ou uma recusa de deixar uma posição confortável de árbitro, a posição do antigo colonizador?
Que reconciliação após o genocídio?
O termo é ambíguo. Teríamos exigido dos judeus de se reconciliar com os alemães ao final da Segunda Guerra mundial? Nós podemos perdoar somente quando a justiça é feita. “Ame teus inimigos” não significa “Ame o programa de teus inimigos”. Foi preciso uma condenação clara do nazismo antes de uma reconciliação com os alemães. E será preciso uma condenação clara do projeto de genocídio ruandês antes que as vítimas e as famílias das vítimas perdoem.
Em Ruanda, não há uma culpa mal assumida, sobretudo do lado francês?
Certamente. Além disso, nós temos sempre dificuldade em admitir que os africanos possam dirigir sua sorte. Assim o Front patriótico ruandês (FPR), esta rebelião majoritariamente tútsi que colocou um fim ao genocídio, quando a comunidade internacional havia abandonado Ruanda, é mal perçue por maus motivos. Por exemplo, porque no dia seguinte do genocídio, o FPR, que retoma então o poder, recusou toda ação humanitária, incluindo quando centenas de milhares de refugiados voltaram. O novo regime não queria campos MSF (Médicos sem fronteiras) em Ruanda, era necessário que os refugiados entrassem diretamente em suas casas e que não criassem raízes em campos de refugiados. Essa decisão chocou o Ocidente, pois nós continuamos a ter uma visão miserabilista sobre a África. Nós não vemos que este continente se move economicamente e politicamente, procura seu próprio caminho. As novas gerações africanas não se voltam mais em direção à França.
O racismo anti tútsis pertence ao passado naquela região?
Oficialmente não se fala mais nem de hutus nem de tútsis em Ruanda, mesmo se certamente todo mundo pensa sobre isso. Todo mundo compreendeu que o discurso étnico era mentiroso, entretanto restam ainda alguns extremistas para jogar com esse discurso. E as guerras no Congo são prolongamentos do genocídio, porque os praticantes ruandeses do genocídio que se refugiaram lá exportaram o ódio contra os tútsis, que são igualmente numerosos na região de fronteira com Ruanda. É um círculo vicioso.


Você foi citado como expert quando do processo em Paris de Pascal Simbikangwa por genocídio, qual pode ser o papel da justiça?
A eficácia da justiça em tais casos se mede com o eco dos processos. O trabalho do Tribunal internacional sobre Ruanda, baseado em Arusha na Tanzânia, é incontestável, mas não é nada diante da repercussão do processo de Nuremberg. É preciso que o trabalho da justiça encontre a opinião pública. Se a justiça não encontra uma continuidade na mídia, há poucas chances para que um processo tenha virtudes pedagógicas. No que concerne a França, uma vez que um processo se passa em Paris, a pedagogia só é possível quando se afasta não somente das leituras étnicas mas também dos debates franco-franceses: a responsabilidade francesa não deve ser o único objeto de debate, isso só faz direcionar um pouco mais a opinião. Os africanos existem e agem por si mesmos. Não são peões que jogamos.


(1) Autor igualmente de "L’invention de l’Afrique des Grands lacs. Une histoire du XXe siècle", Ed. Karthala, 2010, 29 €.


Rwanda, racisme et génocide de Jean-Pierre Chrétien et Marcel Kabanda Belin, 379 pp., 22 €.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Resultados municipais 2014: em Avignon, o PS ganha, o festival continuará na cidade.

Résultats municipales 2014: à Avignon, le PS l'emporte, le festival restera dans la ville



Artigo publicado no site do Le HuffPost
30/03/2014
O PS (Partido Socialista) bate o FN (Front National) em Avignon, o festival de teatro continuará na cidade. Agence France Presse.


Sem terremoto na cidade dos Papas, somente uma ruptura por ocasião do escrutínio de 2014. No momento em que a direita governava a cidade com Marie-Josée Roig desde 1995, é o Partido socialista que vence as eleições municipais em Avignon, após uma grande disputa.
A esquerda ganhou no domingo a eleição municipal em Avignon, a lista conduzida pela socialista Cécile Helle com 47,48% dos votos, segundo resultados oficiais. A lista do FN de Philippe Lottiaux recolheu 35,02% e a do UMP de Bernard Chaussegros 17,50%.
A cidade não terá que questionar a manutenção do festival de teatro. O diretor do festival de Avignon, Olivier Py, se disse, domingo à noite, “aliviado” pela vitória da esquerda na cidade e prometeu uma edição 2014 “direcionada à consciência política”. “Amanhã, Avignon vai acordar e nõs saberemos que o Front nacional fez um ponto extremamente importante, portanto o que é preciso continuar a fazer? Falar, se encontrar, escutar”, reagiu Olivier Py.
Entre os dois turnos, o diretor do festival havia lançado uma bomba, ao declarar que ele não trabalharia com uma equipe liderada pelo Front National. Eu não me vejo trabalhando com uma prefeitura do Front National. Isso me parece completamente inimaginável. Portanto eu penso que seria preciso ir embora. Não haveria nenhuma outra solução, afirmou Olivier Py a France Info.

Ele havia, entretanto, confirmado que, haja o que houver, a edição 2014 aconteceria como previsto.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O Festival d'Avignon ameaça se mudar se o Front National ganhar as eleições


Le Festival d'Avignon menace de déménager si le FN l'emporte



Da Agence France Presse
Artigo originalmente publicado no site do Jornal Libération
24/03/2014

O diretor do festival, Olivier Py, julga “completamente inimaginável” trabalhar com uma prefeitura do Front National (FN).

Se o Front national ganhar as eleições municipais no segundo turno em Avignon, o festival não terá “nenhuma outra solução” que “partir”, afirmou seu diretor, Olivier Py, segunda-feira, no site France Info: “Eu não me vejo trabalhando com uma prefeitura do Front National. Isso me parece completamente inimaginável. Portanto, eu penso que seria preciso ir embora. Não haveria nenhuma outra solução”.
Aliás, eu não vejo como o festival poderia viver, defender suas ideias que são ideias de abertura, de acolhimento do outro. Eu não vejo como o festival poderia viver em Avignon com uma prefeitura do Front National, isso me parece inimaginável”, ele acrescentou.
(…)

Interrogado sobre o precedente dos Chorégies d'Orange que haviam recusado a subvenção da prefeitura do FN, Olivier Py respondeu: “Isso poderia ser uma solução, recusar a subvenção e que o Festival de Avignon seja unicamente nacional.” “Mas isso me parece, no caso de Avignon, tecnicamente um pouco mais difícil, pois não é somente um lugar, é toda uma cidade que se transforma em festival”, concluiu o diretor dessa grande manifestação cultural na França.
Olivier Py anunciou quinta-feira passada a programação de seu primeiro Festigal de Avignon em presença dos eleitos locais, dentre os quais a prefeita que deixa o cargo, Marie-Josée Roig. O antigo diretor do Théâtre de l'Odéon é o primeiro artisga a dirigir o festival de Avignon desde Jean Vilar, seu fundador em 1947.
O festival de Avignon, um dos maiores encontros mundiais do teatro, gera importantes ganhos econômicos para a cidade. O último estudo, em 2001, estimava ganhos de 23 milhões de euros, sem contar o “off”, que com o passar dos anos se tornou uma gigantesca manifestação festiva com cerca de 1000 companhias e mais de 1200 espetáculos. O festival dispõe de um orçamento de aproximadamente 12 milhões de euros (2013) proveniente 59% de subvenções públicas (56% do Estado, 13% da Cidade de Avignon, 13 % da Comunidade de Aglomeração da Grande Avignon, 9% do Departamento de Vaucluse, 7,6% da Região Provence-Alpes-Côte d'Azur e 1,4% da União europeia) e 41% de receitas próprias (venda de ingressos, mecenato, sociedades civis, parcerias específicas, venda de espetáculos...).

domingo, 23 de março de 2014

Sarkozy: "A França dos direitos do homem mudou muito..."


Sarkozy : «La France des droits de l’homme a bien changé...»



Artigo publicado originalmente no site do Jornal Libération
20/03/2014


    Após a publicação de partes de suas conversas com seu advogado, o ex-presidente abandona o silêncio e se dirige aos franceses através de uma carta.


Uma estreia desde sua derrota nas eleições presidenciais de maio de 2012. Dois dias após as transcrições por Mediapart das escutas das conversas entre o antigo presidente e seu advogado, Nicolas Sarkozy se dirige diretamente aos franceses através de uma carta intitulada “O que eu quero dizer aos franceses”, publicada nesta quinta-feira à noite no site Figaro.fr.




E como linha de defesa, o antigo chefe de Estado, minado por suspeitas de tráfico de influência, escolhe o ataque. “Princípios sagrados de nossa República são desprezados com uma violência inédita e uma ausência de escrúpulo sem precedente”, diz ele, e por isso sua decisão de “romper o silêncio”.
As conversas com meu advogado foram gravadas sem o menor constrangimento. O conjunto é objeto de transcrições através das quais imagina-se facilmente quem são os destinatários!”, diz Sarkozy, aliás Paul Bismuth. Ele se pergunta “o que foi feito da transcrição de (suas) conversas”.
Retomando o contra ataque de seu lado, que acusa após uma semana ter havido um complô, ele ironiza as negações de Christiane Taubira e de Manuel Valls. “Eu sei, a ministra da Justiça não sabia de nada, apesar de todos os relatórios que ela pediu e recebeu. O ministro do Interior não sabia de nada, apesar das dezenas de policiais designados somente para minha situação. De quem estamos rindo? Poderíamos rir disso tudo se não se tratasse de princípios republicanos tão fundamentais. Decididamente, a França dos direitos do homem mudou muito”.



A Alemanha do Leste e as atividades da Stasi”



Mais adiante, ele se escandaliza com este assunto que pareceria com os métodos alemães do leste. “Hoje, ainda, toda pessoa que me telefona deve saber que será escutada. Você está lendo bem. Não é um extrato do maravilhoso filme A vida dos outros sobre a Alemanha do Leste e as atividades da Stasi (…). Trata-se da França.”
O antigo chefe de Estado, que não para de deixar planar a dúvida sobre seu retorno à política diante das eleições presidenciais de 2017, desmente esta hipótese: “Contrariamente ao que se escreve quotidianamente, eu não tenho nenhum desejo de me engajar na vida política de nosso país.” Ao mesmo tempo, o ex-presidente, um tipo de comandatário da direita francesa, adverte seus adversários “que deveriam temer (seu) retorno”. Que eles estejam “certos que a melhor maneira de evitar esse retorno seria que eu possa viver minha vida simplesmente, tranquilamente... no fundo, como um cidadão 'normal'!”
Na base do caso, Sarkozy tenta defender seu advogado, Thierry Herzog, de qualquer tráfico de influência. Ele assegura que seu único “crime” é “de ter sido amigo por trinta anos de um advogado do Tribunal de Cassação, um dos mais famosos juristas da França, a quem ele pede conselhos sobre a melhor estratégia de defesa para seu cliente”, quer dizer, Sarkozy. O advogado em questão é Gilbert Azibert. Os extratos de escutas revelados por Mediapart indicam que Herzog contou várias vezes ao ex-presidente que ele obtém informações através de Azibert sobre o caso Bettencourt.



Quando Sarkozy passa da medida


Quand Sarkozy perd toute mesure

Artigo publicado no site do Jornal Libération


20/03/2014
Por Eric DECOUTY


Palavras violentas, excessivas. Em sua primeira aparição desde agosto de 2012, Nicolas Sarkozy propõe para sua defesa apenas um grito de cólera em forma de imprecação. Contra os juízes, os jornalistas, contra um poder socialista que teria criado um grande complô para abatê-lo. Mas a essa exposição oral em sua defesa, já usada por seus seguidores, o ex-presidente acrescenta um toque tão pessoal quanto grotesco. O de uma República perdida onde a polícia e a justiça teriam se transformado em uma Stasi francesa, sob a autoridade de um ditador digno da extinta Alemanha do Leste, François Hollande...


Pouco importa a pobreza de uma argumentação que convencerá apenas seus próximos. A carta de Nicolas Sarkozy guarda pelo menos dois ensinamentos. Inicialmente, o do sentimento de impunidade de um antigo chefe de Estado que se tornou um cidadão comum mas que se considera sempre acima das leis da República. Sarkozy despreza – com exceção de alguns magistrados amigos – uma instituição judiciária da qual ele mal reconhece a legitimidade. Sua missiva, pela falta de propósito, revela sobretudo o estado de um homem que sabe que a justiça passará e que sabe também que seu futuro político corre o risco de quebrar sobre a instrução da Corte.

Nicolas Sarkozy perdeu toda a serenidade, passou das medidas. É a carta de um homem que se perde, vítima de uma violência somente controlada. Não é a carta de um antigo ou de um futuro presidente.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Livro: Um ano na terra dos elefantes

Amigos desta página,

Gostaria de divulgar o livro de um amigo, Heitor Freire de Abreu, que agora está à venda na Amazon  em versão digital por R$ 7,00. Tal iniciativa visa a estimular a leitura e propiciar um valor justo pelo livro no Brasil.
Eu já li este livro, que trata da participação do autor em uma missão de paz na Costa do Marfim, e recomendo!

O endereço é:
 
 

sábado, 8 de março de 2014

Mulheres em destaque

Femmes à la une



Manifesto publicado no Jornal Libération
02/03/2014


Nós, mulheres jornalistas, denunciamos a grande invisibilidade das mulheres na mídia. Nas emissões de debate e nas colunas dos jornais, as mulheres representam apenas 18% dos experts convidados. As demais mulheres entrevistadas são quase sempre apresentadas como simples testemunhas ou vítimas, sem seu sobrenome nem sua profissão.
Nós não suportamos mais os clichês sexistas nas manchetes dos jornais. Por que reduzir ainda tanto as mulheres a objetos sexuais, donas de casa ou histéricas? Por esses desequilíbrios, a mídia participa na difusão de estereótipos sexistas. Ora, ela deveria, em vez disso, representar a sociedade em todos os níveis. Esses estereótipos são ao mesmo tempo a causa e o resultado das desigualdades profissionais, objetivos e atitudes sexistas no seio das redações, mas também da falta de sensibilização dos jornalistas quanto a esse assunto.
Nós recusamos que persistam essas desigualdades profissionais entre as mulheres e os homens nas redações. Não apenas nós somos mais tocadas pela precariedade, mas nós batemos no “teto de vidro”: mais se sobe na hierarquia das redações, menos se encontram mulheres. Mais de 7 diretores de redação em 10 são homens. Quanto aos salários, os das mulheres jornalistas continuam inferiores 12% em média aos dos homens. Essas desigualdades se refletem mecanicamente nos conteúdos da informação. Como dar credibilidade à palavra de experts quando se sofre em reconhecer as capacidades das mulheres jornalistas em dirigir redações? É o círculo vicioso que toca todas as mulheres e ainda mais – é um sofrimento duplo – as mulheres oriundas da diversidade. Para lutar contra essas desigualdades e criar as condições de uma sociedade mais justa para todos, o coletivo Prenons la une está engajado a mostrar, no dia a dia, o discurso e os estereótipos sexistas na mídia e a denunciar as desigualdades. Nós chamamos nossas irmãs e nossos irmãos em seu trabalho diário para uma justa representação da sociedade, e a constituir em sua redação uma base de dados de experts para diversificar as fontes e a torná-las paritárias, como já faz a BBC. Nós os incitamos também a vigiar para que os dirigentes da mídia apliquem a legislação sobre a igualdade profissional, começando por um diagnóstico da situação da empresa.



Além disso, nós pedimos a presença de 50% de experts mulheres nos canais de televisão, uma aplicação concreta da “justa representação de mulheres na mídia” prevista pela lei sobre a igualdade entre as mulheres e os homens (…). Nós pedimos a integração da paridade nos critérios de deontologia do futuro Conselho de imprensa e o condicionamento da atribuição de apoio à imprensa ao respeito das leis sobre a igualdade profissional. Enfim, nós propomos a criação de módulos de formação, dispensados a todos os estudantes de jornalismo, sobre a luta contra os estereótipos e a igualdade profissional. Nós chamamos todos os jornalistas, mulheres e homens, a se juntarem nesse combate pela igualdade!

sexta-feira, 7 de março de 2014

"Para os russos, a Crimeia faz parte do patrimônio nacional"

"Pour les Russes, la Crimée fait partie du patrimoine national"

Artigo publicado no site do Jornal Libération

05/03/2014
Por Cordélia BONAL


Entrevista



Emmanuelle Armadon, especialista na Ucrânia e na Crimeia no Instituto nacional de línguas e civilizações orientais (Inalco) e autora de a Crimeia entre Rússia e Ucrânia: um conflito que não aconteceu (1), retoma a história dessa península, no coração de um braço de ferro entre Kiev e Moscou.
De quando data a presença russa na Crimeia?


Na Crimeia, os russos devem sua presença à imigração. A Crimeia é um território historicamente tártaro, um povo turco-molgol, muçulmano. No século XV, o Khanat da Crimeia passa a protetorado do Império otomano. A primeira leva russa foi tentativa de Pedro, o Grande, que procura uma saída através do mar Negro. É um fracasso. A anexação da Crimeia à Rússia acontecerá em 1783, sob Catarina II, ao final de duas guerras russo-otomanas (1736-1739 e 1768-1774).
A população tártara da Crimeia diminui consideravelmente, pelas perdas de guerra e as ondas de saída em direção ao Império otomano. A partir de então, o Império russo segue ao longo de todo o século XIX uma política de repopulação. Instalam-se na Crimeia camponeses, nobres e militares. O lado Sul se transforma pouco a pouco em estada para a nobreza russa.
E depois, é a guerra da Crimeia.


Esse conflito que opõe entre 1854 e 1856 o Império russo e uma coalizão reunindo o Império otomano, o Reino Unido e a França de Napoleão, e que culminou com a tomada de Sebastopol, acaba com a derrota russa. A guerra da Crimeia provoca uma nova onda de partidas no seio da população tártara. Os tártaros da Crimeia sofrerão, um século mais tarde, em 1944, a deportação por Stalin. Após a Segunda Guerra mundial, o Império soviético faz chegar à Crimeia não apenas russos, mas também ucranianos.
Os tártaros só voltarão à Crimeia no contexto da perestroica. Entre o fim dos anos 1980 e 1994, cerca de 180 000 tártaros se reinstalam na Crimeia, o que é massivo na escala desse território de 2 milhões de habitantes. Esses tártaros se chocaram, e ainda se chocam, com estereótipos da população russa e com medidas discriminatórias. Levados nos anos 90 a se instalarem em zonas rurais pobres e sem infraestruturas, os tártaros se veem relegados. Diante disso, eles ilegalmente tomam posse de terrenos perto das cidades, o que causa, evidentemente, tensões.

Hoje, qual é a divisão étnica da Crimeia?
O último censo sobre a origem étnica da população da Crimeia data de 2001. Ele mostra a seguinte repartição: 58% das pessoas se dizem de etnia russa, 22,4% de etnia ucraniana, e 12,1% de tártaros.
Por isso a população da Crimeia quer deixar a Ucrânia e ser anexada à federação da Rússia?
A anexação à Rússia não é uma unanimidade. Segundo a pesquisa de opinião mais recente, realizada em maio de 2013, somente 23% da população da Crimeia se diz favorável a uma anexação à federação da Rússia. O resultado seria sem dúvida mais importante se fizéssemos o mesmo estudo hoje, em um contexto que desperta o sentimento de secessão. Um referendum deve acontecer em princípio no dia 30 de março. Mas eu acredito que para muitos na Crimeia, incluindo os russos, vale mais ser uma república autônoma na Ucrânia que um súdito entre outros da federação russa.


Como a Crimeia é percebida pelos russos de Moscou?
Para os russos, a Crimeia faz parte do patrimônio nacional russo. Para eles, a Crimeia é Catarina II, é o poder naval do Império russo, é Ialta, o palácio imperial, os poemas de Pushkin e os romances de Tchekov... É essa anexação que explica que a perda da Crimeia, em 1991, no momento da independência ucraniana, foi tão dificilmente vivida pelos russos. Estamos diante de uma problemática de saída do império, sem a qual não se pode compreender por que a Rússia é hoje tão irritada com a Ucrânia e a Crimeia. Para Vladimir Putin os russos e os ucranianos formam um só e um mesmo povo, com um passado e um destino comum.
Desde os anos 90 a Crimeia foi, aliás, para os russos um meio de diminuir a distância de Kiev. Cada vez que a Ucrânia tentou se emancipar, a Rússia atiçou as aspirações de separação da Crimeia e fez lembrar sua presença militar na península.


Você acredita em um conflito armado na Crimeia?


O que poderia, talvez, frear a tomada de armas, é justamente essa dificuldade que os russos têm em considerar os ucranianos como estrangeiros. Essa proximidade, os laços estreitos, às vezes familiares, que existem entre os dois povos, as famílias mistas, frequentes na Crimeia e na Ucrânia... Certos soldados ucranianos explicam que eles teriam muita dificuldade em atirar em soldados russos, e o inverso é sem dúvida verdadeiro. É nisso que a situação na Ucrânia é diferente da Geórgia em 2008: as percepções recíprocas não são as mesmas.
Em revanche, nós podemos muito bem assistir a um apodrecimento da situação. Um novo “conflito” gelado, como na Moldávia com a Transnístria. O que será também determinante é o que vai acontecer no restante das regiões do leste da Ucrânia, com forte população pró-russos. O risco, para Kiev, é o efeito dominó, a propagação das intenções separatistas em outras partes do território da Ucrânia.



(1) Editions Bruylant (De Boeck), 2012.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma em cada três mulheres é vítima de violência na Europa

Une femme sur trois victime de violences en Europe

Artigo publicado no site do Jornal Libération

05/03/2014
Agence France Presse


Um estudo da Agência europeia dos direitos fundamentais se apoia em testemunhos de 42 000 mulheres nos 28 países da União europeia.

Uma em cada três mulheres na UE foi vítima de violência física ou sexual pelo menos uma vez em sua vida desde a idade de 15 anos, segundo um estudo publicado quarta-feira pela Agência europeia dos direitos fundamentais (FRA), a maior já realizada. Isso corresponde a 62 milhões de mulheres na União europeia, enquanto que a FRA estima que uma a cada vinte mulheres foi estuprada a partir dos 15 anos.
O estudo se baseia nos testemunhos, nos 28 países da UE, de 42 000 mulheres em idade de 18 a 74 anos, recolhidos quando de entrevistas individuais realizadas frente a frente entre março e setembro de 2012. “Nós precisamos agir. Muitas mulheres sofrem na Europa!” disse o diretor da FRA, o dinamarquês Morten Kjaerum durante a apresentação do relatório. “Os números revelados pela enquete não podem e não devem simplesmente ser ignorados”, ele acrescentou em um comunicado.
As taxas de declaração mais elevadas foram reveladas nos países da Europa do Norte: na Dinamarca, mais de uma em cada duas mulheres (52%) dizem ter sido vítima de violência. Seguem a Finlândia (47%), a Suécia (46%) e a Holanda (45%). Por outro lado, os países do sul da Europa revelam as taxas mais baixas: 22% das mulheres na Espanha, em Chipre e em Malta declararam ter sido vítimas em sua vida de violência sexual ou física. Vários fatores podem explicar as diferenças entre os países, de acordo com a FRA, sobretudo uma igualdade de gêneros mais concreta que pode levar as mulheres a falar mais facilmente sobre violência e a julgá-la menos aceitável.
A FRA não dispõe de dados comparativos para notar uma evolução de comportamentos, seu estudo sendo o primeiro desta amplitude. “Eu penso que devemos repetir esse estudo a cada quatro ou cinco anos... Colocando as mesmas questões, podemos ver o que se passa”, estima Joanna Goodey, diretora do departamento Liberdades e Justiça da FRA.

A agência convoca os Estados membros da UE a ratificar a convenção do Conselho da Europa sobre a prevenção e a luta contra a violência contra as mulheres e a violência doméstica, a chamada convenção de Istambul. Atualmente, apenas a Áustria, a Itália e Portugal ratificaram essa convenção. Esses três países fizeram a coisa certa, especialmente a Áustria, onde 20% das mulheres foram vítimas de violência sexual ou física, segunda taxa mais fraca revelada pela FRA, atrás da Polônia (19%).

segunda-feira, 3 de março de 2014

Morre o cineasta Alain Resnais


Artigo publicado no Jornal Libération
02/03/2014

O cineasta morreu sábado aos 91 anos

Alain Resnais morreu sábado à noite aos 91 anos. Sabia-se que ele estava hospitalizado havia mais de uma semana e que ele não pôde comparecer ao festival de Berlin, onde seu último filme Aimer, boire et chanter (Amar, beber e cantar) foi apresentado na competição oficial.

Alain Resnais, nós conhecemos seus filmes

Alain Resnais é, junto com Jean-Luc Godard, o grande cineasta da modernidade em crise. Desde muito cedo, ele declara se prevenir da impossibilidade – após os estragos da segunda guerra mundial, os campos de concentração (sobre os quais ele trata em seu documentário Nuit et Brouillard - Noite e Bruma), a bomba nuclear (Hiroshima, mon amour) – de contar nosso mundo através dos contos cheios de causalidade, onde não entraria um irracional profundamente perturbador. Resnais dinamita os quadros narrativos, se presta a todas as experiências de montagens paralelas, de flashbacks que não existem, de modalidade de mise en scène transformando os atores em bonecos perturbados.


Fundamentalmente antinaturalista em seu amor irrefletido pelo corpo artificial”, como tão bem escreveu Louis Skorecki no Jornal Libération, Resnais explora virtuosamente as relações entre a experiência concreta, ofensiva da vida concreta e, no mesmo plano, as ações vergonhosas do imaginário, do imaterial e do artifício atravessando nossas vidas.


Ele procura sempre os filmes que não podem ser feitos”

Arnaud Desplecin, um de seus mais fervorosos admiradores, assim como Pascale Ferran, explica em uma entrevista nos Inrocks: “O que conta, é que ele não é um cineasta emburguesado. Ele é capaz de arriscar tudo a cada novo filme. Ele não se acomoda sobre nenhuma receita e jamais se esquiva da dificuldade de um assunto. Temos a impressão de que ele procura sempre os filmes que não podem ser feitos para justamente procurar a maneira de fazê-los.”
Resnais jamais se fundiu no grupo da Nouvelle Vague, do qual, entretanto, ele está próximo. Nos anos 1960, ele pertence, junto de Agnès Varda, Chris Marker, Georges Franju, Henri Colpi, Armand Gatti e Roger Leenhardt ou ainda Pierre Kast do movimento do Cinema Novo (Nouveau cinéma), assim denominado por analogia com o Romance Novo (Nouveau roman). Com Chris Marker, ele divide uma vontade dandy de não exibir muito seu nome, em ruptura com a obsessão do nome que será uma das marcas de fábrica da Política dos Autores, à la Godard-Truffaut-Rohmer-Rivette-Chabrol.
Outra particularidade de Resnais, ele não escreve seus cenários, ele os provoca sempre partindo de uma frase, de uma ideia, de um conceito, mas ele mesmo não escreve, o que é muito especial em um cinema francês onde o autor é sempre mais ou menos co-signatário do texto cenário-diálogo. O modo como, muito jovem, Resnais passa o comando a Duras em Hiroshima, mon amour, a Robbe-Grillet em L'année dernière à Marienvad, ou a Jean Cayrol por Muriel ou le temps d'un retour (sobre a guerra da Argélia) – e a maneira como ele se apropria dos scripts desses escritores – dá um aspecto singular a sua filmografia. Ele não cessará de agir assim, assimilando completamente as peças de teatro tal qual a do inglês Alan Ayckourn em Smoking/No smoking ou ainda recentemente o Eurídice de Jean Anouilh em Vous n'avez encore rien vu (Você ainda não viu nada).

(...)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A mais velha sobrevivente do holocausto morre aos 110 anos


Artigo publicado no site do Jornal TV5 Monde
Londres (AFP) 24/02/2014

Uma apaixonada por música, apresentada como a mais velha sobrevivente do Holocausto no mundo, cuja história foi tema de um documentário indicado ao Oscar este ano, morreu domingo em Londres com a idade de 110 anos, anunciou sua família.




Durante a Segunda Guerra mundial, Alice Herz-Sommer, judia originária de Praga, havia sido deportada para o campo de concentração de Terezin, hoje na República Tcheca, onde ela aliviava os sofrimentos de seus companheiros detidos tocando piano.
Segundo seu neto Ariel Sommer, “Alice Sommer morreu em paz (…) com sua família a seu lado”. “Ela nos amava, ria conosco e era muito ligada à música. Ela era uma fonte de inspiração e nosso mundo vai ficar consideravelmente empobrecido sem ela a nosso lado”, disse Ariel Sommer.
A vida de Alice Herz-Sommer, que era amiga do escritor existencialista Franz Kafka, é o assunto do filme “The Lady in Number 6: Music Saved My Life”, selecionado na categoria melhor documentário no Oscar que será entregue domingo.
Nesse filme de 38 minutos, a heroína conta sua vida e a importância da música e do riso para levar uma existência feliz.
Eu sou judia, mas Beethoven é minha religião”, explicava recentemente a centenária em um vídeo. “Eu penso em viver meus últimos dias, mas isso pouco importa porque eu tive uma existência extremamente rica. E a vida é magnífica, o amor é magnífico, a natureza e a música são magníficos. Tudo o que se vive é um presente, um presente que devemos amar e passar àqueles que amamos”, acrescentou ela.
Em um outro vídeo, ela explicava “não ter jamais odiado. O ódio conduz somente ao ódio”.
Se nós podemos tocar música, nem tudo está perdido. Ela nos conduz a uma ilha de paz, de beleza e de amor. A música é um sonho”, ela afirmava.
Em seu site na internet, Nicholas Reed, produtor de “The Lady in Number 6”, fala sobre seu filme: “As crianças do mundo inteiro se constroem com seus super-heróis. O que nós, seus pais, devemos lhes lembrar é que os documentários contam história sobre os super-heróis que são verdadeiros. Os super-heróis são baseados em pessoas extraordinárias, em pessoas reais, como Alice Herz-Sommer”.


Cerca de 140.000 Judeus foram deportados para o campo de Terezin e 33.430 dentre eles ali encontraram a morte.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Quando a história do feminismo é reescrita com Antoinette Fouque

Artigo publicado no site do Jornal Libération

22/02/2014
Por Annette LÉVY-WILLARD


Que estranho escutar, neste sábado 22 de fevereiro de 2014, as grandiloquentes homenagens a Antoinette Fouque, morta quinta-feira aos 77 anos. Sem ela, se acreditarmos no que é repetido ao longo do tempo, as francesas não seriam nem liberadas, nem independentes. Horror, sem Antoinette Fouque nós seríamos ainda, infelizes, sem o direito à contracepção, ao aborto, à paridade, assediadas sexualmente nos elevadores... ? A ministra dos Direitos das mulheres assim deu o tom: “Sua contribuição à emancipação de uma geração de francesas é imensa”, afirma sem exitar e sem moderação Najat Vallaud-Belkacem, que tem a desculpa de ter nascido dez anos após o início do movimento de mulheres na França. E é da minha geração que ela fala.


    Antoinette Fouque detestava a palavra 'feminismo'”

Obrigada! Obrigada”, twitavam, umas após as outras, as ministras que parecem dizer que elas lhe devem seus postos no governo socialista. E mesmo Valérie Trierweiller nos confia, em um tweet também, que Antoinette Fouque é, para ela, um “modelo de independência para nós todas”. E vice versa?
A história não é tão rosa quanto “A bela e grande voz do feminismo” que Najat Vallaut-Belkacem saúda, que não imagina, certamente, que Fouque detestava a palavra “feminismo”. Em sua última entrevista, no mês de fevereiro, no canal France Info, ela via no feminismo “a servidão voluntária que fazem algumas para se adaptarem à revista Elle ou a outras”. Feminismo, Beauvoir... para o lixo com a história vista por Fouque.
Na França, nós não tivemos sorte. Nós tínhamos um movimento alegre, bagunçado, excessivo, múltiplo, corrompível e não corrompível, um movimento, não uma organização política, um partido, e sobretudo, não uma marca privada, “MLF” - Movimento de Libertação das Mulheres, em francês -, registrada legalmente, em segredo, por Antoinette Fouque e suas duas amigas, para seu uso político e comercial. Uma “captação de herança”, é isso.
Quarenta e quatro anos depois que uma dezena de amigas – sem ela – colocou um ramo de flores sob o Arco do Triunfo em memória da “mulher ainda mais desconhecida do soldado desconhecido”, a vida de Antoinette Fouque é uma success story: ela construiu sua própria lenda.
No começo, portanto, na onda de maio de 68 e inspiradas pelo Women's Lib americano, as francesas também quiseram falar de sua liberação. E isso foi em 1970, chamado, desajeitadamente se pensarmos bem, de “Ano zero do movimento de liberação das mulheres”. Lembremos que nós éramos filhas e netas naturais daquela que foi, ela sim, a verdadeira inspiradora da emancipação das mulheres na França e no mundo: Simone de Beauvoir, que já havia escrito O Segundo Sexo em 1949...
Antoinette Fouque, professora e psicanalista, toma seu caminho em direção ao poder ao criar seu próprio grupo “Psicanálise e Política”. Moderna, ela compreende a força da transferência freudiana e não exita em analisar as jovens militantes que se juntam a ela. Entre elas, Sylvina Boissonnas, herdeira de uma enorme fortuna. Antoinette Fouque vive a partir de então como uma bilionária, da mansão no VIº distrito de Paris às magníficas residências na França e nos Estados Unidos, ela pôde financiar sua editora das Mulheres e suas livrarias Das Mulheres.
De dramas em psicodramas, o MLF, que se tornou propriedade comercial com a marca Fouque, se reduzirá a uma pequena seita, mas a sigla e as edições servirão para a ascensão social e política da chefinha que possuía um culto histérico a sua personalidade, contado em um artigo de Libération (“Visita ao mausoléu do MLF”, 9 de março de 1983!): “Ao sair dessa exposição sobre a história do MLF, tivemos a impressão de ter feito uma curta viagem à Coreia do Norte de Kim Il-sung.”
Antoinette Fouque fará uma carreira política sendo eleita deputada europeia com o apoio de Bernard Tapie sem que se veja muito bem a ligação entre esse homem de negócios e a emancipação das mulheres. Ela se tornará também vice-presidente da comissão das mulheres em Estrasburgo. Ela aconselha as ministras especializadas em mulheres, ela fala sobretudo em nome do MLF.

E agora, se escutamos as homenagens que repetem “A Antoinette Fouque, as francesas reconhecidas”, nós corremos o risco de esquecer a verdadeira história, o corajoso “Manifesto das 343 inescrupulosas” - do “star-system”, dirá uma Fouque com desprezo – a lei Veil sobre o aborto, os formidáveis trabalhos de historiadoras como Michelle Perrot, que acaba de receber o prêmio Simone de Beauvoir justamente. E todas as leis sobre a paridade e a igualdade. Um esquecimento passageiro.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Inscrições neonazistas, antissemitas e homofóbicas em Toulouse

Artigo publicado no site do Jornal Le Monde, com a Agence France Presse

16/02/2014
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Cruzes gamadas e inscrições antissemitas e homofóbicas foram grafitadas em vários edifícios do coração da cidade de Toulouse (França), incluindo um centro destinado aos homossexuais, um cinema e locais políticos, ficamos sabendo no domingo, 16 de fevereiro, de fontes convergentes.




Os fatos remontariam à noite de sábado para domingo, ou, para alguns, de sexta-feira para sábado. O Espaço das diversidades e da laicidade, que tem por vocação acolher as vítimas de discriminações e que abriga em particular um centro LGBT (lésbicas, gays, bi e transsexuais) foi visado, assim como o local de campanha do candidato do Partido de esquerda nas eleições municipais, o Front de esquerda, o cinema de arte e experiência Utopia, a entrada da Universidade Toulouse 1 Capitole (direito, economia, administração) e o cemitério de Salonique, informaram fontes municipais e policiais. Todos estão situados no centro, a pouca distância uns dos outros.
Um perigo para nossa República”
Por todos os lugares foram pintadas cruzes celtas, emblemas da ultra direita. As inscrições estão no CRIF (Conselho representativo das instituições judaicas), igualam judeus e homossexuais, atacam os maçons. A inscrição “Toulouse nacionalista” foi colocada na calçada diante do local do Front de esquerda. A prefeitura e o candidato do Partido de esquerda, Jean-Christophe Sellin, anunciaram ter dado queixa.
O prefeito socialista Pierre Cohen, que se preocupa regularmente com o aumento do ódio na França há aproximadamente dois anos, se disse “profundamente chocado” e apressou a polícia “para esclarecer o mais rapidamente possível esse assunto”. “Essas mensagens de ódio são um perigo para nossa República. É nossa responsabilidade não deixar que se instale esse clima nefasto com traços dos anos negros”, ele se emocionou em um comunicado.

As investigações correm o risco, entretanto, de se complicarem, pelo fato de que as vítimas se apressaram em apagar as incrições, observou um policial. Os autores são os mesmos que desfilaram no dia 26 de janeiro em Paris pedindo coletivamente um “Dia de cólera”, assegurou Myriam Martin, segunda na lista de Sellin. As degradações cometidas em Toulouse não são as primeiras, entretanto “nada foi feito” e os autores acreditam poder agir com toda impunidade, ela se indignou. “Como isso vai terminar? Poderia ser uma mesquita, uma sinagoga. Nós não queremos que isso acabe à Clément Méric”, jovem militante de extrema esquerda morto em junho de 2013 em um conflito com skinheads, ela disse.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Quem quer mal às árvores da laicidade?


Qui en veut aux arbres de la laïcité?

Artigo publicado no site do Jornal Libération

06/02/2014
Por Sylvain MOUILLARD

Há alguns meses, árvores plantadas para celebrar a lei de 1905 são decapitadas por ativistas anônimos que defendem uma França “católica” e têm como alvo a “maçonaria”.

Há alguns meses, os desenraizadores anônimos causam estragos através da França. Seus alvos: um ginkgo biloba aqui, um carvalho verde acolá. Essas árvores possuem um ponto em comum. Elas foram plantadas para celebrar a lei de 1905 de separação das Igrejas do Estado. Da cidade de Concarneau a Angers, passando por Bordeaux e Essone, os atos de vandalismo se multiplicam. Se seus autores passam, por enquanto, por entre a malha das redes policiais, suas motivações parecem claras: defesa de uma França “católica” e a rejeição da “maçonaria”.
Concarneau, comunidade do Finistério, foi um dos primeiros alvos. Em 2006, uma árvore de um ano se deteriorou. Foi substituída às pressas por um carvalho da América. “Ele cresceu, se fortaleceu, explica Pierre Bleuzen, dos amigos laicos da cidade. De repente, era mais difícil de quebrá-lo. Teria sido preciso uma serra elétrica”. Mas isso não desencoraja os desenraizadores bretões. Em dezembro de 2011, a decoração da árvore foi arrancada “com muita energia”. Uma queixa foi dada, a prefeitura aceita, sem sucesso... Um site regionalista de extrema direita, Breiz Atao, saúda a deterioração: “Em terra chouanne (insurgentes realistas das províncias do Oeste durante a Revolução), ainda existe honra entre os habitantes de Concarneau para não se deixar persuadir de um modo tão grosseiro pelas nostalgias de 1793.”

Um tag “França católica”

O fato se repete dois anos mais tarde. “Tudo que estava ao alcance das mãos desapareceu, sobretudo a decoração para a celebração do aniversário da lei de 1905: miniaturas de Marianne, uma cocarde (emblema circular com as cores azul, branco e vermelho, em tecido), uma fita tricolor”, se lembra Pierre Bleuzen. As árvores de Natal foram poupadas. Para o presidente dos amigos laicos, a ação é premeditada. O alvo é a “esfera de influência católica tradicionalista”. Esses grupos que não aceitam a laicidade saíram da total anonimidade. Eles se autorizam a tomar a palavra, e isso eles não faziam antes.”
Em Bordeaux, foram necessários apenas alguns dias para que o ginkgo biloba plantado pelo comité Gironde-Aquitaine “As árvores da laicidade” fosse cortado. A ação aconteceu na noite do 20 para o 21 de dezembro último. Os autores são sempre anônimos. Eles assinam a ação com um tag “França católica”. “Nós replantaremos, quantas vezes forem necessárias”, repete Marie-Christine Damian-Gautron, presidente do comitê.


Este movimento se sente descomplexado”

Em Boussy, o corte foi reivindicado, em um comunicado, por um movimento nomeado “Combater a Maçonaria”. Eles denunciam a “dominação de clãs maçônicos (…) refugiados, sem coragem nem dignidade, atrás da opacidade que protege suas ambições pessoais e atrás da utilização enganosa de uma laicidade pervertida”, essa obscura organização não parece ter digerido que a acácia de Boussy tenha sido plantada por iniciativa dos representantes locais do Grande Oriente da França. Um “apadrinhamento" do qual Romain Colas não se esconde: “Eu considero que a defesa da laicidade é um valor que nós temos em comum.”

Daniel Keller, grande mestre do Grande Oriente da França, reivindica a ligação de sua organização a essas cerimônias: “As árvores da laicidade são um símbolo, que podemos, aliás, ligar às árvores da liberdade da Revolução francesa.” Como ele, Romain Colas fica alarmado com a recorrência das decapitações de árvores. “É a ação de um grupo marginal extremista e ultra minoritário da sociedade francesa, mas que sempre existiu, ele estima. Esse grupo teve uma janela para se agregar à oposição ao casamento gay. Esse movimento me inquieta pois ele se sente descomplexado.”
Uma preocupação também de Frédéric Béatse, prefeito de Angers, onde os cortadores seriais atacaram em duas ocasiões. Uma primeira vez em novembro de 2013, uma segunda em dezembro. Na segunda vez, os autores deixaram uma mensagem, com um bilhete “Árvore enrolada como um bolo de carne” e as inscrições a giz contra os maçons. Para o prefeito, isso “não traduz um movimento de fundo, mas a ação de um grupo de agitados”. Ele cita sobretudo “a presença de estudantes universitários de extrema direita”. O responsável local do RED (Reunião dos estudantes de direita, um movimento extremista dissolvido em 2008) nega toda implicação, mesmo se a decapitação pareça diverti-lo.

O site “Rouge et le noir”, jornal em linha “católico e de “reinformação” saúda a ação de vandalismo: “A República ama as árvores. Ela fundou sua religião, a laicidade que nós não queremos, sobre esse emblema que está atrás das moedas de um e de dois euros”. O que não desencoraja Frédéric Béatse: “Nós replantaremos se preciso for, eles acabarão sendo pegos.”

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Hollande recebido com luxo na Casa Branca para um jantar de Estado

Artigo publicado no site da TV5 Monde

Washington (AFP) – 12.02.2014

Por Hervé ASQUIN, Tangi QUEMENER

Barack Obama e François Hollande exibiram sua identidade de pontos de vista, terça-feira, sobre as grandes questões geopolíticas e econômicas, trocando cumprimentos e testemunhos de lealdade quando de uma visita em grande pompa do presidente francês à Casa Branca.


Tratando-se por “François” e “Barack, os dois presidentes participaram de uma longa conferência de imprensa ao término de duas horas de conversa no Salão Oval, oportunidade em que foram lembrados os laços históricos entre Paris e Washington, apesar das crises pontuais.
Obama fez alusão à recusa francesa de uma intervenção no Iraque em 2003, observando que a cooperação franco-americana atual sobre os dossiês de política estrangeira teria sido “inimaginável há apenas dez anos”.
“Eu gostaria de saudar o presidente Hollande por ter feito progredir” essa cooperação, ele completou. “François, você não apenas falou com eloquência sobre a determinação da França a tomar responsabilidades como país de primeiro plano. Você também agiu. Do Mali à Síria e o Iram, você deu provas de coragem e de determinação e eu quero agradecer por sua liderança e sua estreita parceria com os Estados Unidos”.
Por sua vez, Hollande, que fazia a primeira visita de Estado de um dirigente francês aos Estados Unidos desde 1996, foi interrogado sobre um outro ponto contencioso recente entre Paris e Washington: as operações de vigilância das comunicações eletrônicas pela tentacular agência de informação NSA, reveladas pelo antigo consultor Edward Snowden.
“Existe uma confiança mútua que foi restaurada (e) que deve estar fundamentada tanto sobre o respeito de cada um de nossos países quanto sobre, igualmente, a proteção da vida privada”, assegurou o presidente francês.
Obama repetiu que “nós nos engajamos a fazer isso de maneira que nós protejamos os direitos à vida privada, não somente (…) de nossos cidadãos, mas também das pessoas que vivem no mundo inteiro”.
Os dois dirigentes disseram também estar na mesma sintonia quanto ao plano nuclear iraniano, em particular as sanções que continuam a ser aplicadas à república islâmica durante o período de acordo temporário.
- Londres ou Paris? Os dois, disse Obama -
Sobre isso, o presidente americano insistiu que as empresas estrangeiras que estão no Irã o fazem por “seus riscos e perigos”, prometendo uma “chuva de sanções” sobre aquelas que não respeitarem o embargo.
Hollande, sobre o fato de que uma delegação de 116 representantes de empresas francesas esteve em Teerã no início de fevereiro, disse ter comunicado claramente a essas firmas que “esses contatos não podiam terminar hoje em acordos comerciais” e que as sanções só seriam aumentadas em caso de “acordo definitivo”.
Sobre a economia, Obama estimou que a França, que sofre em aumentar seu crescimento, teria “feito reformas estruturais difíceis que, a meu ver, vão ajudá-la a ser mais competitiva no futuro”.
Interrogado, em vista do entendimento e da cordialidade exibidos na terça-feira, sobre a questão de saber se a França iria substituir o Reino Unido como beneficiária de uma “relação privilegiada” com os Estados Unidos, Obama se saiu bem com uma brincadeira espirituosa.
“Eu tenho duas filhas. E as duas são sem dúvida esplêndidas e maravilhosas. Eu jamais escolheria uma entre elas. E é assim que eu entendo meus extraordinários parceiros europeus. Todos dois são maravilhosos à sua maneira”, ele exclamou.
Os dois homens, que haviam viajado na véspera no Air Force One a Monticello, cidade do presidente francófilo Thomas Jefferson na Virgínia (leste), participaram no início da manhã de uma cerimônia de recepção em grande pompa, com hinos nacionais, 21 tiros de canhão, discurso e revista de tropas sobre a grama sul da Casa Branca, com um frio polar compensado por um sol brilhante.
Após a conferência de imprensa, Hollande almoçou. A terça-feira terminou com um luxuoso “jantar de Estado”, grande evento social, com cerca de 300 convidados. Michelle Obama apareceu vestindo um esplêndido vestido longo azul com bustiê preto.
Hollande deu um toque histórico a sua visita concedendo a medalha da Légion d'honneur a um dos soldados desconhecidos exumado no cemitério nacional de Arlington e condecorando seis ex-combatentes da Segunda Guerra mundial no Fort Meyer.

Ele concluirá sua visita aos Estados Unidos por uma passagem na quarta-feira pela região de São Francisco (Califórnia, oeste), onde se encontrará com diretores de empresas do “Vale do Silício”.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Imigração: os suíços desafiam a Europa



Artigo publicado no Jornal Libération
09/02/2014

50,3% dos eleitores votaram em favor do texto que reintroduz quotas de imigração em função das necessidades do país. O que pode tornar tensas as relações da Suíça com a União Europeia

O “sim” em favor do fim da “imigração de massa” e da reintrodução de quotas venceu nesse domingo na Suíça. 50,3% dos eleitores votaram em favor do texto intitulado “contra a imigração de massa”, segundo os resultados oficiais, após o fechamento dos locais de votação ao meio-dia.
A taxa de participação foi particularmente alta, atingindo 56%, ou seja, muito mais que a média de 44% habitualmente registrada na Suíça, prova de que o assunto suscitou muito interesse por parte dos eleitores suíços. O referendum, organizado por iniciativa do partido UDC (direita populista) obteve a dupla maioria requerida, ou seja, a maioria dos cantões e a maioria dos eleitores.
Para o politólogo de Genebra Pascal Sciarini, essa vitória do “sim” poderia levar “ao caos”, pois as relações entre a Suíça e a UE correm o risco de serem completamente achatadas. Esse pequeno país alpino, com oito milhões de habitantes, na realidade não faz parte da União europeia, mas é identificado por países membros da UE. Ligada a esta última por acordos bilaterais duramente negociados durante cinco anos, a Suíça aceitou abrir seu mercado de trabalho aos 500 milhões de ativos da UE.
No momento da entrada em vigor da livre circulação, que vem sendo feita progressivamente desde 2002, as autoridades haviam indicado que haveria apenas 8 000 pessoas chegando por ano no máximo. De fato, a Suíça, com sua insolente boa saúde econômica, que tranche com a crise na zona do euro, acolhe 80 000 pessoas em seu mercado de trabalho, um número que provoca a cólera do UDC.


Quotas e contingentes

Se o “sim” vence, a Suíça restabelecerá quotas e contingentes, em função de suas necessidades, para os imigrantes, um sistema com o qual ela viveu antes dos acordos bilaterais com a UE e que se traduz por muitas dificuldades administrativas, fustigadas pelos empregadores.
O governo suíço, a maioria dos partidos políticos bem como os empregadores se pronunciaram de maneira categórica pelo “não”. Segundo eles, frear, ou paralisar essa imigração, significaria o fim da prosperidade suíça. Bruxelas já indicou que se a Suíça coloca um fim no acordo de livre circulação, todos os outros acordos ligando Berna à UE seriam denunciados ipso facto1.
Os partidários do “sim”, o UDC na frente, replicam, dizendo que se trata de uma questão de soberania nacional, e que o país não deve se curvar ao “diktat” europeu. Além disso, esse partido estima que a imigração europeia em massa constatada nos últimos anos é a causa de numerosos males que a Suíça sofre, como o transporte em comum sobrecarregado, uma penúria de moradias, e paisagens desfiguradas pela concretagem com que as empresas do BTP (Edifícios e Obras Públicas) operam.
A imigração se tornou ao longo dos anos um assunto tenso na Suíça. Para responder em parte aos protestos de uma parte da população sobre esse assunto, o governo tomou ultimamente medidas destinadas a dificultar o acesso aos benefícios sociais para os novos imigrantes europeus. Em 2013, os estrangeiros representavam 23,5% (1,88 milhão de pessoas) da população na Suíça.
Antes dos acordos de livre circulação com a UE, havia aproximadamente 20% de estrangeiros na Suíça. Atualmente, desses estrangeiros, 1,25 milhão são oriundos da UE-27 ou da AELE. Os italianos e os alemães são os mais numerosos, com respectivamente 291 000 e 284 200 imigrantes. Eles são seguidos pelos portugueses (237 000) e pelos franceses (104 000). Como exemplo, no ano passado, a população do cantão de Neuchâtel cresceu 10%, uma alta devido a uma chegada em massa de imigrantes portugueses. A esses estrangeiros, é preciso juntar, segundo o UDC, os fronteiriços da região do Arco Lemânico, ao redor do lago Léman, alguns 113 000, no Tessin 60 000, assim como na região da Basileia.



1Ipso facto é uma frase latina que significa que um certo efeito é uma consequência direta da ação em causa.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Jornal Libération em conflito

Imprensa: hora da verdade para Libération, acionários e assalariados em guerra aberta

Paris (AFP) – 08.02.2014
Por Laurence BENHAMOU
Artigo publicado no site da TV5 Monde


Um grande conflito se anuncia no Jornal Libération, onde os acionários querem transformar o jornal, nascido há 40 anos, em rede social e em espaço cultura, em que o papel não seria mais a prioridade.



Os empregados descobriram sexta-feira à noite, em cólera, um breve texto dos acionários, elaborado por Bruno Ledoux, igualmente proprietário do prédio no centro de Paris, resumindo um projeto, que apareceu no jornal de sábado.
Libé (como o jornal é conhecido), fundado em 1973 por Jean-Paul Sartre, não será mais somente um editor em papel mas uma “rede social, criador de conteúdos monetizáveis, em uma grande gama de suportes multimídias”, eles escreveram. A redação se mudará e os 4 500 m2 do edifício, na rua Béranger, em pleno bairro do Marais, serão transformados pelo célebre designer Philippe Starck em “um espaço cultural e de conferência, que terá um estúdio para televisão, um estúdio para rádio, uma news room digital, um restaurante, um bar, um encubador de start-up” sob a marca “Libération”, como um café “Flore do século XXI”.
Esse anúncio inesperado perturbou os empregados, muito ligados ao espírito de seu jornal, ancorado na esquerda. As discussões que duram há meses sobre um plano de economia não tinham tratado de uma transformação tão radical, em que o jornal em papel não é mais prioridade.
Lançar esse anúncio sem aviso prévio aos sindicatos, foi a escolha provocadora de Bruno Ledoux, que com Edouard de Rotschild detém a maioria do capital. (…) Ele adverte que, sem esse projeto, é a falência certa.
“Nosso projeto é a única solução viável para Libération. Se os trabalhadores recusam, Libération não terá mais futuro”, declarou ele à AFP (Agence France Presse). “Há um momento em que é preciso que as coisas sejam ditas. Os empregados queriam um projeto, eles o têm. O papel continuará no coração do sistema, mas não será mais o sistema em si”.
(...)



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O passado cada vez mais tumultuado do sistema solar


Artigo publicado no site do jornal Le Monde
05/02/2014
Por Guillaume CANNAT


A cartografia e a classificação de mais de 100 000 asteroides em função de sua composição e de sua dimensão confirmam que os primeiros tempos do sistema solar foram extremamente caóticos.

Vai ser necessário reescrever os livros de anatomia para dar conta das recentes descobertas sobre a formação do sistema solar. Há uns doze anos, pensava-se que os planetas haviam sido formados pela agregação de grãos de poeira interestelar presentes nos restos da nebulosa que acabava de criar o Sol e que os asteroides eram resíduos dessa fase inicial que, por diversas razões, não estavam aglutinadas para formar um planeta. Estima-se que a massa de asteroides do sistema solar representa apenas um milésimo da massa da Terra, o que dá crédito a esse caráter residual. Pensava-se igualmente que, ao fim dessa fase inicial, os planetas e os pequenos corpos do sistema solar se situavam aproximadamente à mesma distância do Sol que hoje. Certamente, compreendia-se que as colisões podiam ter propulsado os asteroides ou os fragmentos de planetas longe de sua órbita inicial e que a influência gravitacional dos planetas gigantes, sobretudo a de Júpiter, havia engendrado alguns movimentos, mas isso era mais a exceção que a regra. Considerava-se globalmente que a composição dos pequenos corpos do sistema solar era testemunha da composição da nebulosa protoplanetária e das condições físicas que reinavam em sua distância do sol; de um modo geral, os pequenos corpos diferenciados, aqueles cujos elementos mais densos haviam migrado em direção ao coração, se situavam mais perto do Sol que os agregados brutos. Hoje os indícios se acumulam e contam uma outra história.

Um dos primeiros indícios foi a análise da composição de Magnya, um asteroide descoberto em 1937 e que orbita entre 360 e 580 milhões de quilômetros do sol, logo em uma região fria do sistema solar, que se revelou ser constituída de rochas basálticas que só poderiam ter sido formadas muito mais perto do jovem Sol. Em seguida, as descobertas dos asteroides que não estavam “em bom lugar” se multiplicaram. Em 2005, os pesquisadores do Observatório da Côte d'Azur propuseram um modelo, batizado de “modelo de Nice”, que explicava como a migração dos planetas gigantes tinha provocado a ejeção ou a dispersão de numerosos pequenos corpos do sistema solar. Em 2011, o modelo do “Grande Tack” vinha confirmar esse cenário para os primeiros milhões de anos do sistema solar, explicando como Júpiter poderia ter modificado a composição do disco de acreção no qual estavam ainda se formando os planetas do tipo terrestre, se aproximando rapidamente a perto de 1,5 unidade astronômica (ua) do Sol; a unidade astronômica é a distância média entre a Terra e o Sol, ou seja 150 milhões de quilômetros aproximadamente. Enfim, no correr dos últimos vinte anos, a detecção de centenas de exoplanetas gigantes quentes circulando muito perto de sua estrela levou os teóricos a desenvolver modelos de formação e de evolução dos sistemas planetários bem mais dinâmicos que contribuíram para a evolução de nossa compreensão dos primeiros tempos do nosso.
As observações relatadas em um artigo publicado em 30 de janeiro na revista Nature por Francesca DeMeo (Massachusetts Institute of Technology) e Benoît Carry (IMCCE/Observatoire de Paris/CNRS/universidade Pierre-et-Marie Curie/universidade de Lille-I) dão peso ao modelo de Nice e ao modelo do Grand Tack e trazem novas questões. Esses dois astrônomos explicam que eles estabeleceram um mapa da distribuição da composição de mais de 1000 000 asteroides do cinturão principal de uma medida superior a 5 quilômetros. Eles utilizaram as imagens da Sloan Digital Sky Survey (SDSS), uma campanha de observação sistemática do céu profundo, realizada com o telescópio de 2,5 metros da Apache Point (Novo México, Estados Unidos). As imagens da SDSS registraram mais de 100 milhões de objetos celestes, estrelas, galáxias e, certamente, asteroides do sistema solar que passavam pela área. Obtidas com vários comprimentos de onda, essas imagens lhes permitiram catalogar os asteroides em função de sua composição e de sua distância do Sol. O mapa do sistema solar que resultou daí leva a crer em um passado bem mais tumultuado que se imaginava. Os asteroides mais volumosos, mais de 50 quilômetros de diâmetro, estavam num lugar onde não se esperava encontrá-los, mas outros possuem uma divisão que desafia os modelos antigos, e a exceção parece ter se tornado a regra!
Para esses dois pesquisadores, a mistura dos asteroides no ceio do cinturão principal teria sido provavelmente provocada pelas migrações dos planetas gigantes cuja distância do Sol teria mudado de modo espetacular durante o primeiro milhão de anos de existência do sistema solar. Júpiter teria assim se aproximado a somente 1,5 unidade astronômica do Sol logo após sua formação, antes de migrar em direção a sua posição atual, cerca de 5,2 ua, ou seja, um pouco menos de 800 milhões de quilômetros do Sol. Desse modo, ele teria provocado uma mistura fenomenal dos menores corpos do sistema com as mudanças de órbitas mais importantes, as ejeções e os reagrupamentos no meio de dois cinturões de asteroides: uma, a principal, instalada entre as órbitas atuais de Marte e Júpiter, a outra, conhecida como Kuiper, se estendendo para além da órbita de Netuno. Nada ainda está claro e muitos anos de observação e de modelização serão necessários para refinar nosso conhecimento das origens do sistema solar, mas parece evidente hoje que o cinturão principal de asteroides é um verdadeiro pot-pourri da matéria do jovem sistema solar. “Desfazer esses nós é a chave para se compreender a evolução do sistema solar desde sua origem”, afirma Benoît Carry.
Fontes