segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Quando a história do feminismo é reescrita com Antoinette Fouque

Artigo publicado no site do Jornal Libération

22/02/2014
Por Annette LÉVY-WILLARD


Que estranho escutar, neste sábado 22 de fevereiro de 2014, as grandiloquentes homenagens a Antoinette Fouque, morta quinta-feira aos 77 anos. Sem ela, se acreditarmos no que é repetido ao longo do tempo, as francesas não seriam nem liberadas, nem independentes. Horror, sem Antoinette Fouque nós seríamos ainda, infelizes, sem o direito à contracepção, ao aborto, à paridade, assediadas sexualmente nos elevadores... ? A ministra dos Direitos das mulheres assim deu o tom: “Sua contribuição à emancipação de uma geração de francesas é imensa”, afirma sem exitar e sem moderação Najat Vallaud-Belkacem, que tem a desculpa de ter nascido dez anos após o início do movimento de mulheres na França. E é da minha geração que ela fala.


    Antoinette Fouque detestava a palavra 'feminismo'”

Obrigada! Obrigada”, twitavam, umas após as outras, as ministras que parecem dizer que elas lhe devem seus postos no governo socialista. E mesmo Valérie Trierweiller nos confia, em um tweet também, que Antoinette Fouque é, para ela, um “modelo de independência para nós todas”. E vice versa?
A história não é tão rosa quanto “A bela e grande voz do feminismo” que Najat Vallaut-Belkacem saúda, que não imagina, certamente, que Fouque detestava a palavra “feminismo”. Em sua última entrevista, no mês de fevereiro, no canal France Info, ela via no feminismo “a servidão voluntária que fazem algumas para se adaptarem à revista Elle ou a outras”. Feminismo, Beauvoir... para o lixo com a história vista por Fouque.
Na França, nós não tivemos sorte. Nós tínhamos um movimento alegre, bagunçado, excessivo, múltiplo, corrompível e não corrompível, um movimento, não uma organização política, um partido, e sobretudo, não uma marca privada, “MLF” - Movimento de Libertação das Mulheres, em francês -, registrada legalmente, em segredo, por Antoinette Fouque e suas duas amigas, para seu uso político e comercial. Uma “captação de herança”, é isso.
Quarenta e quatro anos depois que uma dezena de amigas – sem ela – colocou um ramo de flores sob o Arco do Triunfo em memória da “mulher ainda mais desconhecida do soldado desconhecido”, a vida de Antoinette Fouque é uma success story: ela construiu sua própria lenda.
No começo, portanto, na onda de maio de 68 e inspiradas pelo Women's Lib americano, as francesas também quiseram falar de sua liberação. E isso foi em 1970, chamado, desajeitadamente se pensarmos bem, de “Ano zero do movimento de liberação das mulheres”. Lembremos que nós éramos filhas e netas naturais daquela que foi, ela sim, a verdadeira inspiradora da emancipação das mulheres na França e no mundo: Simone de Beauvoir, que já havia escrito O Segundo Sexo em 1949...
Antoinette Fouque, professora e psicanalista, toma seu caminho em direção ao poder ao criar seu próprio grupo “Psicanálise e Política”. Moderna, ela compreende a força da transferência freudiana e não exita em analisar as jovens militantes que se juntam a ela. Entre elas, Sylvina Boissonnas, herdeira de uma enorme fortuna. Antoinette Fouque vive a partir de então como uma bilionária, da mansão no VIº distrito de Paris às magníficas residências na França e nos Estados Unidos, ela pôde financiar sua editora das Mulheres e suas livrarias Das Mulheres.
De dramas em psicodramas, o MLF, que se tornou propriedade comercial com a marca Fouque, se reduzirá a uma pequena seita, mas a sigla e as edições servirão para a ascensão social e política da chefinha que possuía um culto histérico a sua personalidade, contado em um artigo de Libération (“Visita ao mausoléu do MLF”, 9 de março de 1983!): “Ao sair dessa exposição sobre a história do MLF, tivemos a impressão de ter feito uma curta viagem à Coreia do Norte de Kim Il-sung.”
Antoinette Fouque fará uma carreira política sendo eleita deputada europeia com o apoio de Bernard Tapie sem que se veja muito bem a ligação entre esse homem de negócios e a emancipação das mulheres. Ela se tornará também vice-presidente da comissão das mulheres em Estrasburgo. Ela aconselha as ministras especializadas em mulheres, ela fala sobretudo em nome do MLF.

E agora, se escutamos as homenagens que repetem “A Antoinette Fouque, as francesas reconhecidas”, nós corremos o risco de esquecer a verdadeira história, o corajoso “Manifesto das 343 inescrupulosas” - do “star-system”, dirá uma Fouque com desprezo – a lei Veil sobre o aborto, os formidáveis trabalhos de historiadoras como Michelle Perrot, que acaba de receber o prêmio Simone de Beauvoir justamente. E todas as leis sobre a paridade e a igualdade. Um esquecimento passageiro.

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