Artigo publicado no site do Jornal Libération
22/02/2014
Por
Annette LÉVY-WILLARD
Que
estranho escutar, neste sábado 22 de fevereiro de 2014, as
grandiloquentes homenagens a Antoinette Fouque, morta quinta-feira
aos 77 anos. Sem ela, se acreditarmos no que é repetido ao longo do
tempo, as francesas não seriam nem liberadas, nem independentes.
Horror, sem Antoinette Fouque nós seríamos ainda, infelizes, sem o
direito à contracepção, ao aborto, à paridade, assediadas
sexualmente nos elevadores... ? A ministra dos Direitos das mulheres
assim deu o tom: “Sua contribuição à emancipação de uma
geração de francesas é imensa”, afirma sem exitar e sem
moderação Najat Vallaud-Belkacem, que tem a desculpa de ter nascido
dez anos após o início do movimento de mulheres na França. E é da
minha geração que ela fala.
“Antoinette Fouque detestava a palavra 'feminismo'”
“Obrigada! Obrigada”,
twitavam,
umas após as outras, as ministras que parecem dizer que elas lhe
devem seus postos no governo socialista. E mesmo Valérie
Trierweiller nos confia, em um tweet
também, que Antoinette Fouque é, para ela, um “modelo
de independência para nós todas”.
E vice versa?
A história não é tão rosa quanto
“A bela e grande voz do feminismo” que Najat
Vallaut-Belkacem saúda, que não imagina, certamente, que Fouque
detestava a palavra “feminismo”. Em sua última entrevista, no
mês de fevereiro, no canal France Info, ela via no feminismo “a
servidão voluntária que fazem algumas para se adaptarem à revista
Elle ou a outras”. Feminismo, Beauvoir... para o lixo com a
história vista por Fouque.
Na França, nós não tivemos sorte.
Nós tínhamos um movimento alegre, bagunçado, excessivo, múltiplo,
corrompível e não corrompível, um movimento, não uma organização
política, um partido, e sobretudo, não uma marca privada, “MLF”
- Movimento de Libertação das Mulheres, em francês -, registrada
legalmente, em segredo, por Antoinette Fouque e suas duas amigas,
para seu uso político e comercial. Uma “captação de herança”,
é isso.
Quarenta e quatro anos depois que
uma dezena de amigas – sem ela – colocou um ramo de flores sob o
Arco do Triunfo em memória da “mulher ainda mais desconhecida do
soldado desconhecido”, a vida de Antoinette Fouque é uma success
story: ela construiu sua própria lenda.
No começo, portanto, na onda de
maio de 68 e inspiradas pelo Women's Lib americano, as
francesas também quiseram falar de sua liberação. E isso foi em
1970, chamado, desajeitadamente se pensarmos bem, de “Ano zero do
movimento de liberação das mulheres”. Lembremos que nós éramos
filhas e netas naturais daquela que foi, ela sim, a verdadeira
inspiradora da emancipação das mulheres na França e no mundo:
Simone de Beauvoir, que já havia escrito O Segundo Sexo em
1949...
Antoinette Fouque, professora e
psicanalista, toma seu caminho em direção ao poder ao criar seu
próprio grupo “Psicanálise e Política”. Moderna, ela
compreende a força da transferência freudiana e não exita em
analisar as jovens militantes que se juntam a ela. Entre elas,
Sylvina Boissonnas, herdeira de uma enorme fortuna. Antoinette Fouque
vive a partir de então como uma bilionária, da mansão no VIº
distrito de Paris às magníficas residências na França e nos
Estados Unidos, ela pôde financiar sua editora das Mulheres e suas
livrarias Das Mulheres.
De dramas em psicodramas, o MLF, que
se tornou propriedade comercial com a marca Fouque, se reduzirá a
uma pequena seita, mas a sigla e as edições servirão para a
ascensão social e política da chefinha que possuía um culto
histérico a sua personalidade, contado em um artigo de Libération
(“Visita ao mausoléu do MLF”, 9 de março de 1983!): “Ao
sair dessa exposição sobre a história do MLF, tivemos a impressão
de ter feito uma curta viagem à Coreia do Norte de Kim Il-sung.”
Antoinette
Fouque fará uma carreira política sendo eleita deputada europeia
com o apoio de Bernard Tapie sem que se veja muito bem a ligação
entre esse homem de negócios e a emancipação das mulheres. Ela se
tornará também vice-presidente da comissão das mulheres em
Estrasburgo. Ela aconselha as ministras especializadas em mulheres,
ela fala sobretudo em nome do MLF.
E agora, se escutamos as homenagens
que repetem “A Antoinette Fouque, as francesas reconhecidas”, nós
corremos o risco de esquecer a verdadeira história, o corajoso
“Manifesto das 343 inescrupulosas” - do “star-system”,
dirá uma Fouque com desprezo – a lei Veil sobre o aborto, os
formidáveis trabalhos de historiadoras como Michelle Perrot, que
acaba de receber o prêmio Simone de Beauvoir justamente. E todas as
leis sobre a paridade e a igualdade. Um esquecimento passageiro.
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