domingo, 16 de fevereiro de 2014

Quem quer mal às árvores da laicidade?


Qui en veut aux arbres de la laïcité?

Artigo publicado no site do Jornal Libération

06/02/2014
Por Sylvain MOUILLARD

Há alguns meses, árvores plantadas para celebrar a lei de 1905 são decapitadas por ativistas anônimos que defendem uma França “católica” e têm como alvo a “maçonaria”.

Há alguns meses, os desenraizadores anônimos causam estragos através da França. Seus alvos: um ginkgo biloba aqui, um carvalho verde acolá. Essas árvores possuem um ponto em comum. Elas foram plantadas para celebrar a lei de 1905 de separação das Igrejas do Estado. Da cidade de Concarneau a Angers, passando por Bordeaux e Essone, os atos de vandalismo se multiplicam. Se seus autores passam, por enquanto, por entre a malha das redes policiais, suas motivações parecem claras: defesa de uma França “católica” e a rejeição da “maçonaria”.
Concarneau, comunidade do Finistério, foi um dos primeiros alvos. Em 2006, uma árvore de um ano se deteriorou. Foi substituída às pressas por um carvalho da América. “Ele cresceu, se fortaleceu, explica Pierre Bleuzen, dos amigos laicos da cidade. De repente, era mais difícil de quebrá-lo. Teria sido preciso uma serra elétrica”. Mas isso não desencoraja os desenraizadores bretões. Em dezembro de 2011, a decoração da árvore foi arrancada “com muita energia”. Uma queixa foi dada, a prefeitura aceita, sem sucesso... Um site regionalista de extrema direita, Breiz Atao, saúda a deterioração: “Em terra chouanne (insurgentes realistas das províncias do Oeste durante a Revolução), ainda existe honra entre os habitantes de Concarneau para não se deixar persuadir de um modo tão grosseiro pelas nostalgias de 1793.”

Um tag “França católica”

O fato se repete dois anos mais tarde. “Tudo que estava ao alcance das mãos desapareceu, sobretudo a decoração para a celebração do aniversário da lei de 1905: miniaturas de Marianne, uma cocarde (emblema circular com as cores azul, branco e vermelho, em tecido), uma fita tricolor”, se lembra Pierre Bleuzen. As árvores de Natal foram poupadas. Para o presidente dos amigos laicos, a ação é premeditada. O alvo é a “esfera de influência católica tradicionalista”. Esses grupos que não aceitam a laicidade saíram da total anonimidade. Eles se autorizam a tomar a palavra, e isso eles não faziam antes.”
Em Bordeaux, foram necessários apenas alguns dias para que o ginkgo biloba plantado pelo comité Gironde-Aquitaine “As árvores da laicidade” fosse cortado. A ação aconteceu na noite do 20 para o 21 de dezembro último. Os autores são sempre anônimos. Eles assinam a ação com um tag “França católica”. “Nós replantaremos, quantas vezes forem necessárias”, repete Marie-Christine Damian-Gautron, presidente do comitê.


Este movimento se sente descomplexado”

Em Boussy, o corte foi reivindicado, em um comunicado, por um movimento nomeado “Combater a Maçonaria”. Eles denunciam a “dominação de clãs maçônicos (…) refugiados, sem coragem nem dignidade, atrás da opacidade que protege suas ambições pessoais e atrás da utilização enganosa de uma laicidade pervertida”, essa obscura organização não parece ter digerido que a acácia de Boussy tenha sido plantada por iniciativa dos representantes locais do Grande Oriente da França. Um “apadrinhamento" do qual Romain Colas não se esconde: “Eu considero que a defesa da laicidade é um valor que nós temos em comum.”

Daniel Keller, grande mestre do Grande Oriente da França, reivindica a ligação de sua organização a essas cerimônias: “As árvores da laicidade são um símbolo, que podemos, aliás, ligar às árvores da liberdade da Revolução francesa.” Como ele, Romain Colas fica alarmado com a recorrência das decapitações de árvores. “É a ação de um grupo marginal extremista e ultra minoritário da sociedade francesa, mas que sempre existiu, ele estima. Esse grupo teve uma janela para se agregar à oposição ao casamento gay. Esse movimento me inquieta pois ele se sente descomplexado.”
Uma preocupação também de Frédéric Béatse, prefeito de Angers, onde os cortadores seriais atacaram em duas ocasiões. Uma primeira vez em novembro de 2013, uma segunda em dezembro. Na segunda vez, os autores deixaram uma mensagem, com um bilhete “Árvore enrolada como um bolo de carne” e as inscrições a giz contra os maçons. Para o prefeito, isso “não traduz um movimento de fundo, mas a ação de um grupo de agitados”. Ele cita sobretudo “a presença de estudantes universitários de extrema direita”. O responsável local do RED (Reunião dos estudantes de direita, um movimento extremista dissolvido em 2008) nega toda implicação, mesmo se a decapitação pareça diverti-lo.

O site “Rouge et le noir”, jornal em linha “católico e de “reinformação” saúda a ação de vandalismo: “A República ama as árvores. Ela fundou sua religião, a laicidade que nós não queremos, sobre esse emblema que está atrás das moedas de um e de dois euros”. O que não desencoraja Frédéric Béatse: “Nós replantaremos se preciso for, eles acabarão sendo pegos.”

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