segunda-feira, 3 de março de 2014

Morre o cineasta Alain Resnais


Artigo publicado no Jornal Libération
02/03/2014

O cineasta morreu sábado aos 91 anos

Alain Resnais morreu sábado à noite aos 91 anos. Sabia-se que ele estava hospitalizado havia mais de uma semana e que ele não pôde comparecer ao festival de Berlin, onde seu último filme Aimer, boire et chanter (Amar, beber e cantar) foi apresentado na competição oficial.

Alain Resnais, nós conhecemos seus filmes

Alain Resnais é, junto com Jean-Luc Godard, o grande cineasta da modernidade em crise. Desde muito cedo, ele declara se prevenir da impossibilidade – após os estragos da segunda guerra mundial, os campos de concentração (sobre os quais ele trata em seu documentário Nuit et Brouillard - Noite e Bruma), a bomba nuclear (Hiroshima, mon amour) – de contar nosso mundo através dos contos cheios de causalidade, onde não entraria um irracional profundamente perturbador. Resnais dinamita os quadros narrativos, se presta a todas as experiências de montagens paralelas, de flashbacks que não existem, de modalidade de mise en scène transformando os atores em bonecos perturbados.


Fundamentalmente antinaturalista em seu amor irrefletido pelo corpo artificial”, como tão bem escreveu Louis Skorecki no Jornal Libération, Resnais explora virtuosamente as relações entre a experiência concreta, ofensiva da vida concreta e, no mesmo plano, as ações vergonhosas do imaginário, do imaterial e do artifício atravessando nossas vidas.


Ele procura sempre os filmes que não podem ser feitos”

Arnaud Desplecin, um de seus mais fervorosos admiradores, assim como Pascale Ferran, explica em uma entrevista nos Inrocks: “O que conta, é que ele não é um cineasta emburguesado. Ele é capaz de arriscar tudo a cada novo filme. Ele não se acomoda sobre nenhuma receita e jamais se esquiva da dificuldade de um assunto. Temos a impressão de que ele procura sempre os filmes que não podem ser feitos para justamente procurar a maneira de fazê-los.”
Resnais jamais se fundiu no grupo da Nouvelle Vague, do qual, entretanto, ele está próximo. Nos anos 1960, ele pertence, junto de Agnès Varda, Chris Marker, Georges Franju, Henri Colpi, Armand Gatti e Roger Leenhardt ou ainda Pierre Kast do movimento do Cinema Novo (Nouveau cinéma), assim denominado por analogia com o Romance Novo (Nouveau roman). Com Chris Marker, ele divide uma vontade dandy de não exibir muito seu nome, em ruptura com a obsessão do nome que será uma das marcas de fábrica da Política dos Autores, à la Godard-Truffaut-Rohmer-Rivette-Chabrol.
Outra particularidade de Resnais, ele não escreve seus cenários, ele os provoca sempre partindo de uma frase, de uma ideia, de um conceito, mas ele mesmo não escreve, o que é muito especial em um cinema francês onde o autor é sempre mais ou menos co-signatário do texto cenário-diálogo. O modo como, muito jovem, Resnais passa o comando a Duras em Hiroshima, mon amour, a Robbe-Grillet em L'année dernière à Marienvad, ou a Jean Cayrol por Muriel ou le temps d'un retour (sobre a guerra da Argélia) – e a maneira como ele se apropria dos scripts desses escritores – dá um aspecto singular a sua filmografia. Ele não cessará de agir assim, assimilando completamente as peças de teatro tal qual a do inglês Alan Ayckourn em Smoking/No smoking ou ainda recentemente o Eurídice de Jean Anouilh em Vous n'avez encore rien vu (Você ainda não viu nada).

(...)

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