Artigo
publicado no Jornal Libération
02/03/2014
O
cineasta morreu sábado aos 91 anos
Alain
Resnais morreu sábado à noite aos 91 anos. Sabia-se que ele estava
hospitalizado havia mais de uma semana e que ele não pôde
comparecer ao festival de Berlin, onde seu último filme Aimer,
boire et chanter
(Amar, beber e cantar) foi apresentado na competição oficial.
Alain
Resnais, nós conhecemos seus filmes
Alain
Resnais é, junto com Jean-Luc Godard, o grande cineasta da
modernidade em crise. Desde muito cedo, ele declara se prevenir da
impossibilidade – após os estragos da segunda guerra mundial, os
campos de concentração (sobre os quais ele trata em seu
documentário Nuit
et Brouillard
- Noite e Bruma), a bomba nuclear (Hiroshima,
mon amour)
– de contar nosso mundo através dos contos cheios de causalidade,
onde não entraria um irracional profundamente perturbador. Resnais
dinamita os quadros narrativos, se presta a todas as experiências de
montagens paralelas, de flashbacks que não existem, de modalidade de
mise
en scène
transformando os atores em bonecos perturbados.
“Fundamentalmente
antinaturalista em seu amor irrefletido pelo corpo artificial”,
como tão bem escreveu Louis Skorecki no Jornal Libération, Resnais
explora virtuosamente as relações entre a experiência concreta,
ofensiva da vida concreta e, no mesmo plano, as ações vergonhosas
do imaginário, do imaterial e do artifício atravessando nossas
vidas.
“Ele procura sempre os filmes que não podem ser feitos”
Arnaud
Desplecin, um de seus mais fervorosos admiradores, assim como Pascale
Ferran, explica em uma entrevista nos Inrocks:
“O
que conta, é que ele não é um cineasta emburguesado. Ele é capaz
de arriscar tudo a cada novo filme. Ele não se acomoda sobre nenhuma
receita e jamais se esquiva da dificuldade de um assunto. Temos a
impressão de que ele procura sempre os filmes que não podem ser
feitos para justamente procurar a maneira de fazê-los.”
Resnais
jamais se fundiu no grupo da Nouvelle Vague, do qual, entretanto, ele
está próximo. Nos anos 1960, ele pertence, junto de Agnès Varda,
Chris Marker, Georges Franju, Henri Colpi, Armand Gatti e Roger
Leenhardt ou ainda Pierre Kast do movimento do Cinema Novo (Nouveau
cinéma), assim denominado por analogia com o Romance Novo (Nouveau
roman). Com Chris Marker, ele divide uma vontade dandy
de não exibir muito seu nome, em ruptura com a obsessão do nome que
será uma das marcas de fábrica da Política dos Autores, à la
Godard-Truffaut-Rohmer-Rivette-Chabrol.
Outra
particularidade de Resnais, ele não escreve seus cenários, ele os
provoca sempre partindo de uma frase, de uma ideia, de um conceito,
mas ele mesmo não escreve, o que é muito especial em um cinema
francês onde o autor é sempre mais ou menos co-signatário do texto
cenário-diálogo. O modo como, muito jovem, Resnais passa o comando
a Duras em Hiroshima,
mon amour,
a Robbe-Grillet em L'année
dernière à Marienvad,
ou a Jean Cayrol por Muriel
ou le temps d'un retour
(sobre a guerra da Argélia) – e a maneira como ele se apropria dos
scripts desses escritores – dá um aspecto singular a sua
filmografia. Ele não cessará de agir assim, assimilando
completamente as peças de teatro tal qual a do inglês Alan Ayckourn
em Smoking/No
smoking
ou ainda recentemente o Eurídice de Jean Anouilh em Vous
n'avez encore rien vu
(Você ainda não viu nada).
(...)
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