sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O passado cada vez mais tumultuado do sistema solar


Artigo publicado no site do jornal Le Monde
05/02/2014
Por Guillaume CANNAT


A cartografia e a classificação de mais de 100 000 asteroides em função de sua composição e de sua dimensão confirmam que os primeiros tempos do sistema solar foram extremamente caóticos.

Vai ser necessário reescrever os livros de anatomia para dar conta das recentes descobertas sobre a formação do sistema solar. Há uns doze anos, pensava-se que os planetas haviam sido formados pela agregação de grãos de poeira interestelar presentes nos restos da nebulosa que acabava de criar o Sol e que os asteroides eram resíduos dessa fase inicial que, por diversas razões, não estavam aglutinadas para formar um planeta. Estima-se que a massa de asteroides do sistema solar representa apenas um milésimo da massa da Terra, o que dá crédito a esse caráter residual. Pensava-se igualmente que, ao fim dessa fase inicial, os planetas e os pequenos corpos do sistema solar se situavam aproximadamente à mesma distância do Sol que hoje. Certamente, compreendia-se que as colisões podiam ter propulsado os asteroides ou os fragmentos de planetas longe de sua órbita inicial e que a influência gravitacional dos planetas gigantes, sobretudo a de Júpiter, havia engendrado alguns movimentos, mas isso era mais a exceção que a regra. Considerava-se globalmente que a composição dos pequenos corpos do sistema solar era testemunha da composição da nebulosa protoplanetária e das condições físicas que reinavam em sua distância do sol; de um modo geral, os pequenos corpos diferenciados, aqueles cujos elementos mais densos haviam migrado em direção ao coração, se situavam mais perto do Sol que os agregados brutos. Hoje os indícios se acumulam e contam uma outra história.

Um dos primeiros indícios foi a análise da composição de Magnya, um asteroide descoberto em 1937 e que orbita entre 360 e 580 milhões de quilômetros do sol, logo em uma região fria do sistema solar, que se revelou ser constituída de rochas basálticas que só poderiam ter sido formadas muito mais perto do jovem Sol. Em seguida, as descobertas dos asteroides que não estavam “em bom lugar” se multiplicaram. Em 2005, os pesquisadores do Observatório da Côte d'Azur propuseram um modelo, batizado de “modelo de Nice”, que explicava como a migração dos planetas gigantes tinha provocado a ejeção ou a dispersão de numerosos pequenos corpos do sistema solar. Em 2011, o modelo do “Grande Tack” vinha confirmar esse cenário para os primeiros milhões de anos do sistema solar, explicando como Júpiter poderia ter modificado a composição do disco de acreção no qual estavam ainda se formando os planetas do tipo terrestre, se aproximando rapidamente a perto de 1,5 unidade astronômica (ua) do Sol; a unidade astronômica é a distância média entre a Terra e o Sol, ou seja 150 milhões de quilômetros aproximadamente. Enfim, no correr dos últimos vinte anos, a detecção de centenas de exoplanetas gigantes quentes circulando muito perto de sua estrela levou os teóricos a desenvolver modelos de formação e de evolução dos sistemas planetários bem mais dinâmicos que contribuíram para a evolução de nossa compreensão dos primeiros tempos do nosso.
As observações relatadas em um artigo publicado em 30 de janeiro na revista Nature por Francesca DeMeo (Massachusetts Institute of Technology) e Benoît Carry (IMCCE/Observatoire de Paris/CNRS/universidade Pierre-et-Marie Curie/universidade de Lille-I) dão peso ao modelo de Nice e ao modelo do Grand Tack e trazem novas questões. Esses dois astrônomos explicam que eles estabeleceram um mapa da distribuição da composição de mais de 1000 000 asteroides do cinturão principal de uma medida superior a 5 quilômetros. Eles utilizaram as imagens da Sloan Digital Sky Survey (SDSS), uma campanha de observação sistemática do céu profundo, realizada com o telescópio de 2,5 metros da Apache Point (Novo México, Estados Unidos). As imagens da SDSS registraram mais de 100 milhões de objetos celestes, estrelas, galáxias e, certamente, asteroides do sistema solar que passavam pela área. Obtidas com vários comprimentos de onda, essas imagens lhes permitiram catalogar os asteroides em função de sua composição e de sua distância do Sol. O mapa do sistema solar que resultou daí leva a crer em um passado bem mais tumultuado que se imaginava. Os asteroides mais volumosos, mais de 50 quilômetros de diâmetro, estavam num lugar onde não se esperava encontrá-los, mas outros possuem uma divisão que desafia os modelos antigos, e a exceção parece ter se tornado a regra!
Para esses dois pesquisadores, a mistura dos asteroides no ceio do cinturão principal teria sido provavelmente provocada pelas migrações dos planetas gigantes cuja distância do Sol teria mudado de modo espetacular durante o primeiro milhão de anos de existência do sistema solar. Júpiter teria assim se aproximado a somente 1,5 unidade astronômica do Sol logo após sua formação, antes de migrar em direção a sua posição atual, cerca de 5,2 ua, ou seja, um pouco menos de 800 milhões de quilômetros do Sol. Desse modo, ele teria provocado uma mistura fenomenal dos menores corpos do sistema com as mudanças de órbitas mais importantes, as ejeções e os reagrupamentos no meio de dois cinturões de asteroides: uma, a principal, instalada entre as órbitas atuais de Marte e Júpiter, a outra, conhecida como Kuiper, se estendendo para além da órbita de Netuno. Nada ainda está claro e muitos anos de observação e de modelização serão necessários para refinar nosso conhecimento das origens do sistema solar, mas parece evidente hoje que o cinturão principal de asteroides é um verdadeiro pot-pourri da matéria do jovem sistema solar. “Desfazer esses nós é a chave para se compreender a evolução do sistema solar desde sua origem”, afirma Benoît Carry.
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