Artigo publicado no
Jornal Libération
09/02/2014
50,3% dos eleitores votaram em favor do texto que reintroduz quotas de imigração em função das necessidades do país. O que pode tornar tensas as relações da Suíça com a União Europeia
O “sim” em favor do fim da
“imigração de massa” e da reintrodução de quotas venceu nesse
domingo na Suíça. 50,3% dos eleitores votaram em favor do texto
intitulado “contra a imigração de massa”, segundo os resultados
oficiais, após o fechamento dos locais de votação ao meio-dia.
A taxa de participação foi
particularmente alta, atingindo 56%, ou seja, muito mais que a média
de 44% habitualmente registrada na Suíça, prova de que o assunto
suscitou muito interesse por parte dos eleitores suíços. O
referendum, organizado por iniciativa do partido UDC (direita
populista) obteve a dupla maioria requerida, ou seja, a maioria dos
cantões e a maioria dos eleitores.
Para o politólogo de Genebra Pascal
Sciarini, essa vitória do “sim” poderia levar “ao caos”,
pois as relações entre a Suíça e a UE correm o risco de serem
completamente achatadas. Esse pequeno país alpino, com oito milhões
de habitantes, na realidade não faz parte da União europeia, mas é
identificado por países membros da UE. Ligada a esta última por
acordos bilaterais duramente negociados durante cinco anos, a Suíça
aceitou abrir seu mercado de trabalho aos 500 milhões de ativos da
UE.
No momento da entrada em vigor da
livre circulação, que vem sendo feita progressivamente desde 2002,
as autoridades haviam indicado que haveria apenas 8 000 pessoas
chegando por ano no máximo. De fato, a Suíça, com sua insolente
boa saúde econômica, que tranche com a crise na zona do euro,
acolhe 80 000 pessoas em seu mercado de trabalho, um número que
provoca a cólera do UDC.
Quotas e contingentes
Se o “sim” vence, a Suíça
restabelecerá quotas e contingentes, em função de suas
necessidades, para os imigrantes, um sistema com o qual ela viveu
antes dos acordos bilaterais com a UE e que se traduz por muitas
dificuldades administrativas, fustigadas pelos empregadores.
O governo suíço, a maioria dos
partidos políticos bem como os empregadores se pronunciaram de
maneira categórica pelo “não”. Segundo eles, frear, ou
paralisar essa imigração, significaria o fim da prosperidade suíça.
Bruxelas já indicou que se a Suíça coloca um fim no acordo de
livre circulação, todos os outros acordos ligando Berna à UE
seriam denunciados ipso facto1.
Os partidários do “sim”, o UDC
na frente, replicam, dizendo que se trata de uma questão de
soberania nacional, e que o país não deve se curvar ao “diktat”
europeu. Além disso, esse partido estima que a imigração europeia
em massa constatada nos últimos anos é a causa de numerosos males
que a Suíça sofre, como o transporte em comum sobrecarregado, uma
penúria de moradias, e paisagens desfiguradas pela concretagem com
que as empresas do BTP (Edifícios e Obras Públicas) operam.
A imigração se tornou ao longo dos
anos um assunto tenso na Suíça. Para responder em parte aos
protestos de uma parte da população sobre esse assunto, o governo
tomou ultimamente medidas destinadas a dificultar o acesso aos
benefícios sociais para os novos imigrantes europeus. Em 2013, os
estrangeiros representavam 23,5% (1,88 milhão de pessoas) da
população na Suíça.
Antes dos acordos de livre
circulação com a UE, havia aproximadamente 20% de estrangeiros na
Suíça. Atualmente, desses estrangeiros, 1,25 milhão são oriundos
da UE-27 ou da AELE. Os italianos e os alemães são os mais
numerosos, com respectivamente 291 000 e 284 200 imigrantes. Eles são
seguidos pelos portugueses (237 000) e pelos franceses (104 000).
Como exemplo, no ano passado, a população do cantão de Neuchâtel
cresceu 10%, uma alta devido a uma chegada em massa de imigrantes
portugueses. A esses estrangeiros, é preciso juntar, segundo o UDC,
os fronteiriços da região do Arco Lemânico, ao redor do lago
Léman, alguns 113 000, no Tessin 60 000, assim como na região da
Basileia.
1Ipso
facto é uma frase latina que significa que um certo efeito é uma
consequência direta da ação em causa.
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