sexta-feira, 7 de março de 2014

"Para os russos, a Crimeia faz parte do patrimônio nacional"

"Pour les Russes, la Crimée fait partie du patrimoine national"

Artigo publicado no site do Jornal Libération

05/03/2014
Por Cordélia BONAL


Entrevista



Emmanuelle Armadon, especialista na Ucrânia e na Crimeia no Instituto nacional de línguas e civilizações orientais (Inalco) e autora de a Crimeia entre Rússia e Ucrânia: um conflito que não aconteceu (1), retoma a história dessa península, no coração de um braço de ferro entre Kiev e Moscou.
De quando data a presença russa na Crimeia?


Na Crimeia, os russos devem sua presença à imigração. A Crimeia é um território historicamente tártaro, um povo turco-molgol, muçulmano. No século XV, o Khanat da Crimeia passa a protetorado do Império otomano. A primeira leva russa foi tentativa de Pedro, o Grande, que procura uma saída através do mar Negro. É um fracasso. A anexação da Crimeia à Rússia acontecerá em 1783, sob Catarina II, ao final de duas guerras russo-otomanas (1736-1739 e 1768-1774).
A população tártara da Crimeia diminui consideravelmente, pelas perdas de guerra e as ondas de saída em direção ao Império otomano. A partir de então, o Império russo segue ao longo de todo o século XIX uma política de repopulação. Instalam-se na Crimeia camponeses, nobres e militares. O lado Sul se transforma pouco a pouco em estada para a nobreza russa.
E depois, é a guerra da Crimeia.


Esse conflito que opõe entre 1854 e 1856 o Império russo e uma coalizão reunindo o Império otomano, o Reino Unido e a França de Napoleão, e que culminou com a tomada de Sebastopol, acaba com a derrota russa. A guerra da Crimeia provoca uma nova onda de partidas no seio da população tártara. Os tártaros da Crimeia sofrerão, um século mais tarde, em 1944, a deportação por Stalin. Após a Segunda Guerra mundial, o Império soviético faz chegar à Crimeia não apenas russos, mas também ucranianos.
Os tártaros só voltarão à Crimeia no contexto da perestroica. Entre o fim dos anos 1980 e 1994, cerca de 180 000 tártaros se reinstalam na Crimeia, o que é massivo na escala desse território de 2 milhões de habitantes. Esses tártaros se chocaram, e ainda se chocam, com estereótipos da população russa e com medidas discriminatórias. Levados nos anos 90 a se instalarem em zonas rurais pobres e sem infraestruturas, os tártaros se veem relegados. Diante disso, eles ilegalmente tomam posse de terrenos perto das cidades, o que causa, evidentemente, tensões.

Hoje, qual é a divisão étnica da Crimeia?
O último censo sobre a origem étnica da população da Crimeia data de 2001. Ele mostra a seguinte repartição: 58% das pessoas se dizem de etnia russa, 22,4% de etnia ucraniana, e 12,1% de tártaros.
Por isso a população da Crimeia quer deixar a Ucrânia e ser anexada à federação da Rússia?
A anexação à Rússia não é uma unanimidade. Segundo a pesquisa de opinião mais recente, realizada em maio de 2013, somente 23% da população da Crimeia se diz favorável a uma anexação à federação da Rússia. O resultado seria sem dúvida mais importante se fizéssemos o mesmo estudo hoje, em um contexto que desperta o sentimento de secessão. Um referendum deve acontecer em princípio no dia 30 de março. Mas eu acredito que para muitos na Crimeia, incluindo os russos, vale mais ser uma república autônoma na Ucrânia que um súdito entre outros da federação russa.


Como a Crimeia é percebida pelos russos de Moscou?
Para os russos, a Crimeia faz parte do patrimônio nacional russo. Para eles, a Crimeia é Catarina II, é o poder naval do Império russo, é Ialta, o palácio imperial, os poemas de Pushkin e os romances de Tchekov... É essa anexação que explica que a perda da Crimeia, em 1991, no momento da independência ucraniana, foi tão dificilmente vivida pelos russos. Estamos diante de uma problemática de saída do império, sem a qual não se pode compreender por que a Rússia é hoje tão irritada com a Ucrânia e a Crimeia. Para Vladimir Putin os russos e os ucranianos formam um só e um mesmo povo, com um passado e um destino comum.
Desde os anos 90 a Crimeia foi, aliás, para os russos um meio de diminuir a distância de Kiev. Cada vez que a Ucrânia tentou se emancipar, a Rússia atiçou as aspirações de separação da Crimeia e fez lembrar sua presença militar na península.


Você acredita em um conflito armado na Crimeia?


O que poderia, talvez, frear a tomada de armas, é justamente essa dificuldade que os russos têm em considerar os ucranianos como estrangeiros. Essa proximidade, os laços estreitos, às vezes familiares, que existem entre os dois povos, as famílias mistas, frequentes na Crimeia e na Ucrânia... Certos soldados ucranianos explicam que eles teriam muita dificuldade em atirar em soldados russos, e o inverso é sem dúvida verdadeiro. É nisso que a situação na Ucrânia é diferente da Geórgia em 2008: as percepções recíprocas não são as mesmas.
Em revanche, nós podemos muito bem assistir a um apodrecimento da situação. Um novo “conflito” gelado, como na Moldávia com a Transnístria. O que será também determinante é o que vai acontecer no restante das regiões do leste da Ucrânia, com forte população pró-russos. O risco, para Kiev, é o efeito dominó, a propagação das intenções separatistas em outras partes do território da Ucrânia.



(1) Editions Bruylant (De Boeck), 2012.

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