terça-feira, 22 de abril de 2014

"Shoah e Ruanda, referências comuns"

«Shoah et Rwanda, des références communes»

Artigo publicado no site do Jornal Libération
28/03/2014
Por Catherine CALVET e Maria MALAGARDIS


IDEIAS

Vinte anos após o genocídio, o historiador Jean-Pierre Chrétien analisa a lógica que conduziu ao projeto de exterminação dos tútsis.

Cerca de um milhão de mortos em apenas cem dias: o genocídio da minoria tútsi, que se passou em Ruanda há exatamente vinte anos, constitui a mais fulgurante tentativa de exterminação da História contemporânea. Por que este acontecimento continua tão mal conhecido, e tão pouco reconhecido? É uma das interrogações à qual tenta responder o historiador Jean-Pierre Chrétien em seu último livro, Rwanda, Racisme et Génocide, l'idéologie hamitique - Ruanda, Racismo e Genocídio, a ideologia hamítica (1). Este especialista da África dos Grandes Lagos analisa em seu livro também as razões que tornaram possível um tal massacre. Pois foram necessários anos de propaganda, de falsificação da História, imposta especialmente pelo colonizador, e a estigmatização do Outro para convencer as mentes da necessidade do pior. No fundo, a História se repete, e o historiador não deixa de sublinhar os paralelos perturbadores entre o antissemitismo na Europa que conduziu à Shoah e o que se passou em 1994 nesse pequeno país no coração da África.



Quais são as origens deste genocídio?
O genocídio ruandês não foi improvisado em função de uma conjuntura. Não era tampouco uma fatalidade inscrita nos genes da população ruandesa: é preciso parar de ter uma visão etnográfica da África e reduzir esta tragédia a um massacre interétnico como se escuta ainda muito comumente. O reconhecimento de um genocídio pela comunidade internacional (como é o caso em Ruanda) não depende do número de mortos mas de um projeto, de uma lógica de exterminação que se inscreve na duração. Ora, no caso ruandês, a ideologia racista que vai se impor encontra também raízes na Europa. Nós encontramos as mesmas referências, os mesmos autores que estão na origem da Shoah na Europa. As teorias de Gobineau também influenciaram os colonizadores de Ruanda. Os Ocidentais do século XIX possuíam uma grade de leitura do mundo “racializada”.
Você invoca a ideologia hamítica. Quem são os hamitas?
Tal noção, que aparece no século XIX, servia para designar os africanos que se supunha ter origem extra africana. Nos fantasmas ocidentais que se exportam para a África, os hamitas representariam assim uma “raça superior”. Ao descobrir um reino muito organizado, uma sociedade hierarquizada e sofisticada, crente em um Deus único, coisa rara na África, os primeiros Brancos que chegam em Ruanda não podem conceber que se trata de uma realidade africana. Eles vão criar o mito do tútsi hamita vindo de alhures. Em realidade, essa visão de raça se impôs em toda a África. Era preciso classificar, etiquetar. E teorizar esta visão da África. O antropólogo britânico Charles Gabriel Seligman, por exemplo, vai desenvolver a ideia em As Raças na África (publicado em 1930), que os pretensos hamitas difundiram seus saberes e uma organização política avançada sobre o continente. Portanto, existe um “verdadeiro negro” e um “falso negro”. O verdadeiro negro corresponde aos preconceitos racistas utilizados para justificar o tráfico. Essa classificação será sistemática na África oriental e austral. Próximo do oceano Índico e da península arábica, essa região conheceu movimentos e misturas de populações, mas é como se analisássemos o movimento dos Bonnets rouges (os Bonés vermelhos) através da presença celta. Encontramos também esta tese racista em Gobineau, em seu Essai sur l'inégalité des races humaines – Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (em 1853), teria havido um primeiro “escoamento branco” (onda de povoamento de origem europeia), da qual se originariam os hamitas. Desde as primeiras horas da colonização, os tútsis foram classificados em uma categoria “superior” e os hutus se tornaram os sub humanos.
Enquanto que no início nem hutus nem tútsis são verdadeiras etnias?
Isso mesmo, são castas transformadas em etnias pelo colonizador fascinado pela monarquia. Ora, naquela época, somente 15 a 20% dos tútsis eram aristocratas e era possível passar de hutu a tútsi em função de seu lugar na sociedade. Aliás, a palavra etnia é bastante recente, ela substituiu os termos “raça” ou “tribo” nos anos 1970. Assim a clivagem social no seio de uma população que dividia a mesma língua, a mesma cultura e uma mesma história é transformada em uma separação estanque entre dois pseudo povos. As ferramentas intelectuais desta clivagem são artificiais e antigas.
Segundo a ideologia hamítica, os tútsis eram, portanto, vistos de modo positivo?
Houve várias mudanças bruscas. O que denotava, no início, uma certa admiração transformou-se em seguida em sinal de uma desconfiança, os indígenas que vão resistir à colonização são justamente esses Hamitas favorecidos no início. Os missionários tiveram um grande papel na construção desses preconceitos. Eles chegam a explicar que os hamitas são os herdeiros de um povo que fugiu quando da queda da torre de Babel. Eles teriam assim pertencido a uma civilização superior, mas teriam sido punidos por sua arrogância. É o reflexo de uma ideologia, pois, ao mesmo tempo, os manuais dos missionários são empregados para sustentar a ideia de uma civilização urbana que se perverte. Mesmo se os tútsis são considerados como superiores e mais inteligentes, e portanto favorecidos inicialmente pelo colonizador, este último insinua desde o início que eles possuem hábitos suspeitos em contraste com a simplicidade dos hutus. Como diz muito bem o jornalista Jean Hatzfeld (antigo jornalista de Libération) os tútsis não têm nada a ver com os judeus, mas se encontram em uma situação similar. Do antissemitismo ao “antitutsismo”, é possível encontrar pistas comuns. Há também um efeito espelho entre a ideologia racista dos anos 1930 na Europa (arianos contra semitas) e esta construção racial transportada para Ruanda (hutus contra tútsis)... São ideologias complexas, com fantasmas e mudanças identitários múltiplos. O colonizador não domina tudo. As sociedades colonizadas instrumentalizam à sua maneira certas ideias ocidentais que os colonizadores quiseram lhes aplicar. A aristocracia ou as elites tútsis da Ruanda dos anos 50 levam uma parte da responsabilidade, elas se deixaram seduzir por esta pretensa superioridade. E os hutus, que tomam o poder em 1959, não contra o colonizador mas contra o tútsi, vão utilizar com vantagem para si desta herança colonial.
O genocídio é também produto de uma situação sócio econômica?
No início dos anos 90, a única esperança para Ruanda, então em plena crise, teria sido uma verdadeira revolução social, mas o genocídio bloqueou tudo. O racismo como o nazismo permite permanecer no poder sem questionar nem o capitalismo nem algum funcionamento econômico ou social injusto.
A dimensão social continua primordial, é o que permitiu a legitimação da visão racial. É assim que a luta das raças suplantará a luta de classes... Lá, ainda, encontraremos a leitura colonial, Ruanda foi administrada em termos de “raças”. E é quando essa linguagem das “raças” se junta a um discurso social que a situação se torna explosiva. Esse esquema simplificador descrevia os tútsis de “raça” hamítica conquistadora face aos hutus de “raça” bantu, os hutus representavam o terceiro estado e os tútsis eram os aristocratas. Essa visão não era somente veiculada pelos detentores de um poder enfraquecido em Ruanda, constituía também o molde de leitura do presidente François Mitterrand. Assim, no início, os tútsis eram talvez vistos como inteligentes, racionais, como aqueles a quem se podia delegar o poder. Depois, nos anos 1950, era melhor se fiar nos hutus, que representavam o “verdadeiro” povo ruandês, e desconfiar dos tútsis, descendentes dos “aristocratas”. As referências à revolução francesa são evidentes. Mas em Ruanda, quando o poder bascule em favor dos hutus à independência, os privilégios não são abolidos, como na noite do 4 de agosto de 1789, eles apenas trocam de campo. E as menções étnicas nas carteiras de identidade introduzidas pelos belgas em 1930 são mantidas e vão servir para estigmatizar os tútsis. As teses dos historiadores do século XIX vão justificar a inelutabilidade do genocídio tendo por fundo uma desesperança social e econômica que coloca a sociedade ruandesa em um impasse.


Por que se fala ainda de “massacres interétnicos” com relação a Ruanda, de “conflito entre hutus e tútsis”?
É uma visão herdada da época colonial que nos impede de analisar verdadeiramente os contextos político e ideológico da África contemporânea. A política estrangeira consiste ainda em “gerenciar” as etnias. Não viria a nosso espírito a ideia de misturar a ex-Iugoslávia, Ucrânia e Bélgica; deveria ser o mesmo para Ruanda, a República Centro-Africana e o Mali. Não se pode reduzir todos os conflitos a problemas étnicos. É a preguiça intelectual ou uma recusa de deixar uma posição confortável de árbitro, a posição do antigo colonizador?
Que reconciliação após o genocídio?
O termo é ambíguo. Teríamos exigido dos judeus de se reconciliar com os alemães ao final da Segunda Guerra mundial? Nós podemos perdoar somente quando a justiça é feita. “Ame teus inimigos” não significa “Ame o programa de teus inimigos”. Foi preciso uma condenação clara do nazismo antes de uma reconciliação com os alemães. E será preciso uma condenação clara do projeto de genocídio ruandês antes que as vítimas e as famílias das vítimas perdoem.
Em Ruanda, não há uma culpa mal assumida, sobretudo do lado francês?
Certamente. Além disso, nós temos sempre dificuldade em admitir que os africanos possam dirigir sua sorte. Assim o Front patriótico ruandês (FPR), esta rebelião majoritariamente tútsi que colocou um fim ao genocídio, quando a comunidade internacional havia abandonado Ruanda, é mal perçue por maus motivos. Por exemplo, porque no dia seguinte do genocídio, o FPR, que retoma então o poder, recusou toda ação humanitária, incluindo quando centenas de milhares de refugiados voltaram. O novo regime não queria campos MSF (Médicos sem fronteiras) em Ruanda, era necessário que os refugiados entrassem diretamente em suas casas e que não criassem raízes em campos de refugiados. Essa decisão chocou o Ocidente, pois nós continuamos a ter uma visão miserabilista sobre a África. Nós não vemos que este continente se move economicamente e politicamente, procura seu próprio caminho. As novas gerações africanas não se voltam mais em direção à França.
O racismo anti tútsis pertence ao passado naquela região?
Oficialmente não se fala mais nem de hutus nem de tútsis em Ruanda, mesmo se certamente todo mundo pensa sobre isso. Todo mundo compreendeu que o discurso étnico era mentiroso, entretanto restam ainda alguns extremistas para jogar com esse discurso. E as guerras no Congo são prolongamentos do genocídio, porque os praticantes ruandeses do genocídio que se refugiaram lá exportaram o ódio contra os tútsis, que são igualmente numerosos na região de fronteira com Ruanda. É um círculo vicioso.


Você foi citado como expert quando do processo em Paris de Pascal Simbikangwa por genocídio, qual pode ser o papel da justiça?
A eficácia da justiça em tais casos se mede com o eco dos processos. O trabalho do Tribunal internacional sobre Ruanda, baseado em Arusha na Tanzânia, é incontestável, mas não é nada diante da repercussão do processo de Nuremberg. É preciso que o trabalho da justiça encontre a opinião pública. Se a justiça não encontra uma continuidade na mídia, há poucas chances para que um processo tenha virtudes pedagógicas. No que concerne a França, uma vez que um processo se passa em Paris, a pedagogia só é possível quando se afasta não somente das leituras étnicas mas também dos debates franco-franceses: a responsabilidade francesa não deve ser o único objeto de debate, isso só faz direcionar um pouco mais a opinião. Os africanos existem e agem por si mesmos. Não são peões que jogamos.


(1) Autor igualmente de "L’invention de l’Afrique des Grands lacs. Une histoire du XXe siècle", Ed. Karthala, 2010, 29 €.


Rwanda, racisme et génocide de Jean-Pierre Chrétien et Marcel Kabanda Belin, 379 pp., 22 €.


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