«Shoah et Rwanda, des références communes»
Artigo
publicado no site do Jornal Libération
28/03/2014
Por
Catherine CALVET e Maria MALAGARDIS
IDEIAS
Vinte anos após o genocídio, o
historiador Jean-Pierre Chrétien analisa a lógica que conduziu ao
projeto de exterminação dos tútsis.
Cerca de um milhão de mortos em apenas cem dias: o genocídio da minoria tútsi, que se passou em Ruanda há exatamente vinte anos, constitui a mais fulgurante tentativa de exterminação da História contemporânea. Por que este acontecimento continua tão mal conhecido, e tão pouco reconhecido? É uma das interrogações à qual tenta responder o historiador Jean-Pierre Chrétien em seu último livro, Rwanda, Racisme et Génocide, l'idéologie hamitique - Ruanda, Racismo e Genocídio, a ideologia hamítica (1). Este especialista da África dos Grandes Lagos analisa em seu livro também as razões que tornaram possível um tal massacre. Pois foram necessários anos de propaganda, de falsificação da História, imposta especialmente pelo colonizador, e a estigmatização do Outro para convencer as mentes da necessidade do pior. No fundo, a História se repete, e o historiador não deixa de sublinhar os paralelos perturbadores entre o antissemitismo na Europa que conduziu à Shoah e o que se passou em 1994 nesse pequeno país no coração da África.
Quais são as origens deste
genocídio?
O genocídio ruandês não foi
improvisado em função de uma conjuntura. Não era tampouco uma
fatalidade inscrita nos genes da população ruandesa: é preciso
parar de ter uma visão etnográfica da África e reduzir esta
tragédia a um massacre interétnico como se escuta ainda muito
comumente. O reconhecimento de um genocídio pela comunidade
internacional (como é o caso em Ruanda) não depende do número de
mortos mas de um projeto, de uma lógica de exterminação que se
inscreve na duração. Ora, no caso ruandês, a ideologia racista
que vai se impor encontra também raízes na Europa. Nós
encontramos as mesmas referências, os mesmos autores que estão na
origem da Shoah na Europa. As teorias de Gobineau também
influenciaram os colonizadores de Ruanda. Os Ocidentais do século
XIX possuíam uma grade de leitura do mundo “racializada”.
Você invoca a ideologia hamítica. Quem são os hamitas?
Tal noção, que aparece no século
XIX, servia para designar os africanos que se supunha ter origem
extra africana. Nos fantasmas ocidentais que se exportam para a
África, os hamitas representariam assim uma “raça superior”.
Ao descobrir um reino muito organizado, uma sociedade hierarquizada
e sofisticada, crente em um Deus único, coisa rara na África, os
primeiros Brancos que chegam em Ruanda não podem conceber que se
trata de uma realidade africana. Eles vão criar o mito do tútsi
hamita vindo de alhures. Em realidade, essa visão de raça se impôs
em toda a África. Era preciso classificar, etiquetar. E teorizar
esta visão da África. O antropólogo britânico Charles Gabriel
Seligman, por exemplo, vai desenvolver a ideia em As Raças na
África (publicado em 1930), que os pretensos hamitas difundiram
seus saberes e uma organização política avançada sobre o
continente. Portanto, existe um “verdadeiro negro” e um “falso
negro”. O verdadeiro negro corresponde aos preconceitos racistas
utilizados para justificar o tráfico. Essa classificação será
sistemática na África oriental e austral. Próximo do oceano
Índico e da península arábica, essa região conheceu movimentos e
misturas de populações, mas é como se analisássemos o movimento
dos Bonnets rouges (os Bonés vermelhos) através da presença
celta. Encontramos também esta tese racista em Gobineau, em seu
Essai sur l'inégalité des races humaines – Ensaio sobre a
desigualdade das raças humanas (em 1853), teria havido um primeiro
“escoamento branco” (onda de povoamento de origem europeia), da
qual se originariam os hamitas. Desde as primeiras horas da
colonização, os tútsis foram classificados em uma categoria
“superior” e os hutus se tornaram os sub humanos.
Enquanto que no início nem hutus nem tútsis são verdadeiras etnias?
Isso mesmo, são castas
transformadas em etnias pelo colonizador fascinado pela monarquia.
Ora, naquela época, somente 15 a 20% dos tútsis eram aristocratas
e era possível passar de hutu a tútsi em função de seu lugar na
sociedade. Aliás, a palavra etnia é bastante recente, ela
substituiu os termos “raça” ou “tribo” nos anos 1970. Assim
a clivagem social no seio de uma população que dividia a mesma
língua, a mesma cultura e uma mesma história é transformada em
uma separação estanque entre dois pseudo povos. As ferramentas
intelectuais desta clivagem são artificiais e antigas.
Segundo a ideologia hamítica, os tútsis eram, portanto, vistos de modo positivo?
Houve várias mudanças bruscas. O
que denotava, no início, uma certa admiração transformou-se em
seguida em sinal de uma desconfiança, os indígenas que vão
resistir à colonização são justamente esses Hamitas favorecidos
no início. Os missionários tiveram um grande papel na construção
desses preconceitos. Eles chegam a explicar que os hamitas são os
herdeiros de um povo que fugiu quando da queda da torre de Babel.
Eles teriam assim pertencido a uma civilização superior, mas
teriam sido punidos por sua arrogância. É o reflexo de uma
ideologia, pois, ao mesmo tempo, os manuais dos missionários são
empregados para sustentar a ideia de uma civilização urbana que se
perverte. Mesmo se os tútsis são considerados como superiores e
mais inteligentes, e portanto favorecidos inicialmente pelo
colonizador, este último insinua desde o início que eles possuem
hábitos suspeitos em contraste com a simplicidade dos hutus. Como
diz muito bem o jornalista Jean Hatzfeld (antigo jornalista de
Libération) os tútsis não têm nada a ver com os judeus, mas se
encontram em uma situação similar. Do antissemitismo ao
“antitutsismo”, é possível encontrar pistas comuns. Há
também um efeito espelho entre a ideologia racista dos anos 1930 na
Europa (arianos contra semitas) e esta construção racial
transportada para Ruanda (hutus contra tútsis)... São ideologias
complexas, com fantasmas e mudanças identitários múltiplos. O
colonizador não domina tudo. As sociedades colonizadas
instrumentalizam à sua maneira certas ideias ocidentais que os
colonizadores quiseram lhes aplicar. A aristocracia ou as elites
tútsis da Ruanda dos anos 50 levam uma parte da responsabilidade,
elas se deixaram seduzir por esta pretensa superioridade. E os
hutus, que tomam o poder em 1959, não contra o colonizador mas
contra o tútsi, vão utilizar com vantagem para si desta herança
colonial.
O genocídio é também produto
de uma situação sócio econômica?
No início dos anos 90, a única
esperança para Ruanda, então em plena crise, teria sido uma
verdadeira revolução social, mas o genocídio bloqueou tudo. O
racismo como o nazismo permite permanecer no poder sem questionar
nem o capitalismo nem algum funcionamento econômico ou social
injusto.
A dimensão social continua
primordial, é o que permitiu a legitimação da visão racial. É
assim que a luta das raças suplantará a luta de classes... Lá,
ainda, encontraremos a leitura colonial, Ruanda foi administrada em
termos de “raças”. E é quando essa linguagem das “raças”
se junta a um discurso social que a situação se torna explosiva.
Esse esquema simplificador descrevia os tútsis de “raça”
hamítica conquistadora face aos hutus de “raça” bantu, os
hutus representavam o terceiro estado e os tútsis eram os
aristocratas. Essa visão não era somente veiculada pelos
detentores de um poder enfraquecido em Ruanda, constituía também o
molde de leitura do presidente François Mitterrand. Assim, no
início, os tútsis eram talvez vistos como inteligentes, racionais,
como aqueles a quem se podia delegar o poder. Depois, nos anos 1950,
era melhor se fiar nos hutus, que representavam o “verdadeiro”
povo ruandês, e desconfiar dos tútsis, descendentes dos
“aristocratas”. As referências à revolução francesa são
evidentes. Mas em Ruanda, quando o poder bascule em favor dos hutus
à independência, os privilégios não são abolidos, como na noite
do 4 de agosto de 1789, eles apenas trocam de campo. E as menções
étnicas nas carteiras de identidade introduzidas pelos belgas em
1930 são mantidas e vão servir para estigmatizar os tútsis. As
teses dos historiadores do século XIX vão justificar a
inelutabilidade do genocídio tendo por fundo uma desesperança
social e econômica que coloca a sociedade ruandesa em um impasse.
Por que se fala ainda de
“massacres interétnicos” com relação a Ruanda, de “conflito
entre hutus e tútsis”?
É uma visão herdada da época
colonial que nos impede de analisar verdadeiramente os contextos
político e ideológico da África contemporânea. A política
estrangeira consiste ainda em “gerenciar” as etnias. Não viria
a nosso espírito a ideia de misturar a ex-Iugoslávia, Ucrânia e
Bélgica; deveria ser o mesmo para Ruanda, a República
Centro-Africana e o Mali. Não se pode reduzir todos os conflitos a
problemas étnicos. É a preguiça intelectual ou uma recusa de
deixar uma posição confortável de árbitro, a posição do antigo
colonizador?
Que reconciliação após o genocídio?
O termo é ambíguo. Teríamos
exigido dos judeus de se reconciliar com os alemães ao final da
Segunda Guerra mundial? Nós podemos perdoar somente quando a
justiça é feita. “Ame teus inimigos” não significa “Ame o
programa de teus inimigos”. Foi preciso uma condenação clara do
nazismo antes de uma reconciliação com os alemães. E será
preciso uma condenação clara do projeto de genocídio ruandês
antes que as vítimas e as famílias das vítimas perdoem.
Em Ruanda, não há uma culpa mal assumida, sobretudo do lado francês?
Certamente. Além disso, nós temos
sempre dificuldade em admitir que os africanos possam dirigir sua
sorte. Assim o Front patriótico ruandês (FPR), esta rebelião
majoritariamente tútsi que colocou um fim ao genocídio, quando a
comunidade internacional havia abandonado Ruanda, é mal perçue por
maus motivos. Por exemplo, porque no dia seguinte do genocídio, o
FPR, que retoma então o poder, recusou toda ação humanitária,
incluindo quando centenas de milhares de refugiados voltaram. O novo
regime não queria campos MSF (Médicos sem fronteiras) em Ruanda,
era necessário que os refugiados entrassem diretamente em suas
casas e que não criassem raízes em campos de refugiados. Essa
decisão chocou o Ocidente, pois nós continuamos a ter uma visão
miserabilista sobre a África. Nós não vemos que este continente
se move economicamente e politicamente, procura seu próprio
caminho. As novas gerações africanas não se voltam mais em
direção à França.
O racismo anti tútsis pertence ao passado naquela região?
Oficialmente não se fala mais nem
de hutus nem de tútsis em Ruanda, mesmo se certamente todo mundo
pensa sobre isso. Todo mundo compreendeu que o discurso étnico era
mentiroso, entretanto restam ainda alguns extremistas para jogar com
esse discurso. E as guerras no Congo são prolongamentos do
genocídio, porque os praticantes ruandeses do genocídio que se
refugiaram lá exportaram o ódio contra os tútsis, que são
igualmente numerosos na região de fronteira com Ruanda. É um
círculo vicioso.
Você foi citado como expert
quando do processo em Paris de Pascal Simbikangwa por genocídio,
qual pode ser o papel da justiça?
A eficácia da justiça em tais
casos se mede com o eco dos processos. O trabalho do Tribunal
internacional sobre Ruanda, baseado em Arusha na Tanzânia, é
incontestável, mas não é nada diante da repercussão do processo
de Nuremberg. É preciso que o trabalho da justiça encontre a
opinião pública. Se a justiça não encontra uma continuidade na mídia, há poucas
chances para que um processo tenha virtudes pedagógicas. No que
concerne a França, uma vez que um processo se passa em Paris, a
pedagogia só é possível quando se afasta não somente das
leituras étnicas mas também dos debates franco-franceses: a
responsabilidade francesa não deve ser o único objeto de debate,
isso só faz direcionar um pouco mais a opinião. Os africanos
existem e agem por si mesmos. Não são peões que jogamos.
(1) Autor igualmente de "L’invention
de l’Afrique des Grands lacs. Une histoire du XXe siècle",
Ed. Karthala, 2010, 29 €.
Rwanda, racisme et génocide de
Jean-Pierre Chrétien et Marcel Kabanda
Belin, 379 pp., 22 €.
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