domingo, 23 de março de 2014

Sarkozy: "A França dos direitos do homem mudou muito..."


Sarkozy : «La France des droits de l’homme a bien changé...»



Artigo publicado originalmente no site do Jornal Libération
20/03/2014


    Após a publicação de partes de suas conversas com seu advogado, o ex-presidente abandona o silêncio e se dirige aos franceses através de uma carta.


Uma estreia desde sua derrota nas eleições presidenciais de maio de 2012. Dois dias após as transcrições por Mediapart das escutas das conversas entre o antigo presidente e seu advogado, Nicolas Sarkozy se dirige diretamente aos franceses através de uma carta intitulada “O que eu quero dizer aos franceses”, publicada nesta quinta-feira à noite no site Figaro.fr.




E como linha de defesa, o antigo chefe de Estado, minado por suspeitas de tráfico de influência, escolhe o ataque. “Princípios sagrados de nossa República são desprezados com uma violência inédita e uma ausência de escrúpulo sem precedente”, diz ele, e por isso sua decisão de “romper o silêncio”.
As conversas com meu advogado foram gravadas sem o menor constrangimento. O conjunto é objeto de transcrições através das quais imagina-se facilmente quem são os destinatários!”, diz Sarkozy, aliás Paul Bismuth. Ele se pergunta “o que foi feito da transcrição de (suas) conversas”.
Retomando o contra ataque de seu lado, que acusa após uma semana ter havido um complô, ele ironiza as negações de Christiane Taubira e de Manuel Valls. “Eu sei, a ministra da Justiça não sabia de nada, apesar de todos os relatórios que ela pediu e recebeu. O ministro do Interior não sabia de nada, apesar das dezenas de policiais designados somente para minha situação. De quem estamos rindo? Poderíamos rir disso tudo se não se tratasse de princípios republicanos tão fundamentais. Decididamente, a França dos direitos do homem mudou muito”.



A Alemanha do Leste e as atividades da Stasi”



Mais adiante, ele se escandaliza com este assunto que pareceria com os métodos alemães do leste. “Hoje, ainda, toda pessoa que me telefona deve saber que será escutada. Você está lendo bem. Não é um extrato do maravilhoso filme A vida dos outros sobre a Alemanha do Leste e as atividades da Stasi (…). Trata-se da França.”
O antigo chefe de Estado, que não para de deixar planar a dúvida sobre seu retorno à política diante das eleições presidenciais de 2017, desmente esta hipótese: “Contrariamente ao que se escreve quotidianamente, eu não tenho nenhum desejo de me engajar na vida política de nosso país.” Ao mesmo tempo, o ex-presidente, um tipo de comandatário da direita francesa, adverte seus adversários “que deveriam temer (seu) retorno”. Que eles estejam “certos que a melhor maneira de evitar esse retorno seria que eu possa viver minha vida simplesmente, tranquilamente... no fundo, como um cidadão 'normal'!”
Na base do caso, Sarkozy tenta defender seu advogado, Thierry Herzog, de qualquer tráfico de influência. Ele assegura que seu único “crime” é “de ter sido amigo por trinta anos de um advogado do Tribunal de Cassação, um dos mais famosos juristas da França, a quem ele pede conselhos sobre a melhor estratégia de defesa para seu cliente”, quer dizer, Sarkozy. O advogado em questão é Gilbert Azibert. Os extratos de escutas revelados por Mediapart indicam que Herzog contou várias vezes ao ex-presidente que ele obtém informações através de Azibert sobre o caso Bettencourt.



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