sábado, 1 de fevereiro de 2014

Que sou eu?


A filosofia sacode a biologia



Por Nicolas CHEVASSUS-AU-LOUIS



Artigo publicado originalmente no Jornal Le Monde do dia 20 de novembro de 2013 no caderno Science & Médecine (Ciência e Medicina), p. 4.



IMUNOLOGIA



No modelo clássico do “soi” (próprio ao organismo) e do “non-soi” (adquiridos)1, o sistema imunitário protege o organismo das agressões ao reconhecer os intrusos. Mas esse paradigma está se quebrando.

Um filósofo, um físico e um biólogo propõem uma alternativa.



A manchete da revista Nature Reviews Immunology de outubro anunciava um argito assinado por um trio improvável: um filósofo, um físico e um biólogo. “Nosso artigo propõe um duplo formalismo filosófico e matemático para os dados experimentais da imunologia”, explica Eric Vivier, diretor do Centro de imunologia de Marseille-Luminy e último signatário do artigo. A chave: uma nova teoria do funcionamento do sistema imunitário alternativa àquela, hoje hegemônica, do “soi” e do “non-soi”.

Essa teoria, formulada nos anos 1940 pelo virólogo australiano Franc Macfarlane Burne (Prêmio Nobel de fisiologia e de medicina em 1960), anuncia que o sistema imunitário protege o organismo contra as agressões exteriores distinguindo no nível molecular o “soi”( as células do organismo) do “non-soi”. Entretanto, a base teórica da imunologia moderna, que encontramos exposta em todos os manuais de biologia, se parte por todo lado. Há uma quinzena de anos, os biólogos descobriram vários fenômenos que é difícil de explicar nesse quadro teórico.

O sistema imunitário pode assim atacar as células do próprio organismo. É o que se produz nas doenças autoimunes, como a diabete tipo 1. Mesmo fora de toda patologia, certos linfócitos (uma das categorias de células do sistema imunitário, eles são igualmente conhecidos sob o nome familiar de glóbulos brancos) ditos de largo espectro, são ativados por motivos bioquímicos do “soi”. Inversamente, o sistema imunitário não ataca certas células que manifestadamente fazem parte do “non-soi).

É o caso das inúmeras bactérias que vivem na superfície das mucosas (intestino, pulmão...) mas também, mais raramente, no interior do corpo, em todo organismo são. Ou então o das células trocadas, numa gestação, entre o organismo maternal e o feto. Mesmo se pouco numerosas (no máximo uma célula maternal por mil células do organismo, de acordo desmembramentos feitos em ratos de laboratório), essas células persistem durante toda a vida, tanto no organismo da criança quanto no de sua mãe, mesmo que elas não tenham o mesmo patrimônio genético e deveriam portanto ser reconhecidas como fazendo parte do “non-soi”.

Especialista em células natural killer (NK), um tipo de linfócito que ataca de maneira inata toda célula anormal, Eric Vivier se espantava, há muitos anos, com certas propriedades fora do caminho das células que ele estudava. A atividade dessas últimas é regulada pela balança entre dois fenômenos opostos.

De um lado, uma ativação, pelas moléculas presentes na superfície, seja das células estrangeiras ao corpo, seja das células do corpo modificadas por uma patologia (por exemplo porque elas se tornam tumorais). Por outro lado, uma inibição feita por outras moléculas presentes na superfície das células de um organismo saudável. Entretanto, esses efeitos, tanto ativadores como inibidores, cessam quando a estimulação, ou sua ausência, se prolonga. Tudo se passa, portanto, como se não fosse a estimulação por uma molécula mas antes de mais nada a variação no passar do tempo dessa estimulação, que inicia a atividade das células NK.

Por sua vez, Thomas Pradeu, conferencista em filosofia na Universidade Paris-Sorbonne, havia proposto em sua tese de filosofia, defendida em 2007 e, depois, publicada em francês e em inglês, uma teoria da imunidade apoiada tanto sobre a reflexão epistemológica quanto no perfeito conhecimento dos dados experimentais da imunologia: a teoria da continuidade/descontinuidade, segundo a qual uma resposta imunitária é induzida não pelo “non-soi” como tal, mas pela aparição repentina de motivos antigênicos diferentes daqueles com os quais o sistema imunitário está habituado a reagir.

O artigo de Nature Reviews Immunology nasceu do encontro desses dois caminhos intelectuais paralelos. Sua terceira assinatura, o físico especialista de modelização Sébastien Jaeger, que também trabalha no Centro de imunologia de Marseille-Luminy, veio trazer ao duo do filósofo e do imunologista a formalização matemática de sua teoria.

A resposta imunitária, sustentam os três pesquisadores, não é ativada pela exposição ao “non-soi”, mas pela variação repentina dos motivos moleculares – a descontinuidade – aos quais o sistema imunitário está exposto. Essa variação pode ser de natureza qualitativa, que é o caso quando o “non-soi” de um agente patogênico desconhecido penetra no organismo.

Mas também quantitativa, que seja no tempo (como quando as espécies bacterianas da flora intertinal passa a crescer de repente, após uso de antibióticos que eliminam as outras espécies) ou no espaço (bactérias normalmente presentes nos pulmões causam meningites quando irrompem no líquido céfalo-richidiano no qual se banha o cérebro).

“Nossa teoria da descontinuidade não vai de encontro da teoria do “soi” e do “non-soi”, mas a engloba num quadro mais largo, que permite compreender fenômenos que não se podiam explicar”, frisa Eric Vivier. Uma das virtudes da teoria da descontinuidade é mostrar as dificuldades do sistema imunitário de encarar infecções crônicas, mas também o aparecimento de tumores formados de células modificadas, que deveriam, segundo a teoria do “soi” e do “non-soi”, ser reconhecidas como estrangeiras ao corpo e destruídas.

(…)

O trio do filósofo, do físico e do biólogo reflete atualmente sobre melhores experiências para testar a validade das predições da teoria da descontinuidade.

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O estudo das sutilezas moleculares dos linfócitos e dos anticorpos coloca questões caras à metafísica: o que é um indivíduo? O que funda sua unicidade? Sua identidade?

Como escreveu a médica e filósofa Anne-Marie Moulin no Dictionnaire de la pensée médicale (Edições PUF, 2004): “A imunologia contemporânea é uma ciência biológica privilegiada pois ela suscita e alimenta a reflexão filosófica sobre o destino do organismo humano. Várias questões que a interessam, a sobrevivência, a identidade, o nascimento e a morte são questões concernentes ao mesmo tempo ao biólogo e ao filósofo”.

(…)



Nota: Alguns trechos foram subtraídos pelo fato de o artigo ser muito longo, sem perda de sua compreensão global.

1Esses termos correspondem a “self” e “non-self” conforme o original da teoria em inglês.

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