A filosofia sacode a
biologia
Por Nicolas
CHEVASSUS-AU-LOUIS
Artigo publicado
originalmente no Jornal Le Monde do dia 20 de novembro de 2013
no caderno Science & Médecine (Ciência e Medicina), p.
4.
IMUNOLOGIA
No
modelo clássico do “soi” (próprio ao organismo) e do “non-soi”
(adquiridos),
o sistema imunitário protege o organismo das agressões ao
reconhecer os intrusos. Mas esse paradigma está se quebrando.
Um
filósofo, um físico e um biólogo propõem uma alternativa.
A
manchete da revista Nature Reviews Immunology de outubro
anunciava um argito assinado por um trio improvável: um filósofo,
um físico e um biólogo. “Nosso artigo propõe um duplo formalismo
filosófico e matemático para os dados experimentais da imunologia”,
explica Eric Vivier, diretor do Centro de imunologia de
Marseille-Luminy e último signatário do artigo. A chave: uma nova
teoria do funcionamento do sistema imunitário alternativa àquela,
hoje hegemônica, do “soi” e do “non-soi”.
Essa
teoria, formulada nos anos 1940 pelo virólogo australiano Franc
Macfarlane Burne (Prêmio Nobel de fisiologia e de medicina em 1960),
anuncia que o sistema imunitário protege o organismo contra as
agressões exteriores distinguindo no nível molecular o “soi”(
as células do organismo) do “non-soi”. Entretanto, a base
teórica da imunologia moderna, que encontramos exposta em todos os
manuais de biologia, se parte por todo lado. Há uma quinzena de
anos, os biólogos descobriram vários fenômenos que é difícil de
explicar nesse quadro teórico.
O
sistema imunitário pode assim atacar as células do próprio
organismo. É o que se produz nas doenças autoimunes, como a diabete
tipo 1. Mesmo fora de toda patologia, certos linfócitos (uma das
categorias de células do sistema imunitário, eles são igualmente
conhecidos sob o nome familiar de glóbulos brancos) ditos de largo
espectro, são ativados por motivos bioquímicos do “soi”.
Inversamente, o sistema imunitário não ataca certas células que
manifestadamente fazem parte do “non-soi).
É o
caso das inúmeras bactérias que vivem na superfície das mucosas
(intestino, pulmão...) mas também, mais raramente, no interior do
corpo, em todo organismo são. Ou então o das células trocadas,
numa gestação, entre o organismo maternal e o feto. Mesmo se pouco
numerosas (no máximo uma célula maternal por mil células do
organismo, de acordo desmembramentos feitos em ratos de laboratório),
essas células persistem durante toda a vida, tanto no organismo da
criança quanto no de sua mãe, mesmo que elas não tenham o mesmo
patrimônio genético e deveriam portanto ser reconhecidas como
fazendo parte do “non-soi”.
Especialista
em células natural killer (NK), um tipo de linfócito que
ataca de maneira inata toda célula anormal, Eric Vivier se
espantava, há muitos anos, com certas propriedades fora do caminho
das células que ele estudava. A atividade dessas últimas é
regulada pela balança entre dois fenômenos opostos.
De um
lado, uma ativação, pelas moléculas presentes na superfície, seja
das células estrangeiras ao corpo, seja das células do corpo
modificadas por uma patologia (por exemplo porque elas se tornam
tumorais). Por outro lado, uma inibição feita por outras moléculas
presentes na superfície das células de um organismo saudável.
Entretanto, esses efeitos, tanto ativadores como inibidores, cessam
quando a estimulação, ou sua ausência, se prolonga. Tudo se passa,
portanto, como se não fosse a estimulação por uma molécula mas
antes de mais nada a variação no passar do tempo dessa estimulação,
que inicia a atividade das células NK.
Por sua
vez, Thomas Pradeu, conferencista em filosofia na Universidade
Paris-Sorbonne, havia proposto em sua tese de filosofia, defendida em
2007 e, depois, publicada em francês e em inglês, uma teoria da
imunidade apoiada tanto sobre a reflexão epistemológica quanto no
perfeito conhecimento dos dados experimentais da imunologia: a teoria
da continuidade/descontinuidade, segundo a qual uma resposta
imunitária é induzida não pelo “non-soi” como tal, mas pela
aparição repentina de motivos antigênicos diferentes daqueles com
os quais o sistema imunitário está habituado a reagir.
O artigo
de Nature Reviews Immunology nasceu do encontro desses dois caminhos
intelectuais paralelos. Sua terceira assinatura, o físico
especialista de modelização Sébastien Jaeger, que também trabalha
no Centro de imunologia de Marseille-Luminy, veio trazer ao duo do
filósofo e do imunologista a formalização matemática de sua
teoria.
A
resposta imunitária, sustentam os três pesquisadores, não é
ativada pela exposição ao “non-soi”, mas pela variação
repentina dos motivos moleculares – a descontinuidade – aos quais
o sistema imunitário está exposto. Essa variação pode ser de
natureza qualitativa, que é o caso quando o “non-soi” de um
agente patogênico desconhecido penetra no organismo.
Mas
também quantitativa, que seja no tempo (como quando as espécies
bacterianas da flora intertinal passa a crescer de repente, após uso
de antibióticos que eliminam as outras espécies) ou no espaço
(bactérias normalmente presentes nos pulmões causam meningites
quando irrompem no líquido céfalo-richidiano no qual se banha o
cérebro).
“Nossa
teoria da descontinuidade não vai de encontro da teoria do “soi”
e do “non-soi”, mas a engloba num quadro mais largo, que permite
compreender fenômenos que não se podiam explicar”, frisa Eric
Vivier. Uma das virtudes da teoria da descontinuidade é mostrar as
dificuldades do sistema imunitário de encarar infecções crônicas,
mas também o aparecimento de tumores formados de células
modificadas, que deveriam, segundo a teoria do “soi” e do
“non-soi”, ser reconhecidas como estrangeiras ao corpo e
destruídas.
(…)
O trio
do filósofo, do físico e do biólogo reflete atualmente sobre
melhores experiências para testar a validade das predições da
teoria da descontinuidade.
(…)
O estudo
das sutilezas moleculares dos linfócitos e dos anticorpos coloca
questões caras à metafísica: o que é um indivíduo? O que funda
sua unicidade? Sua identidade?
Como
escreveu a médica e filósofa Anne-Marie Moulin no Dictionnaire
de la pensée médicale (Edições PUF, 2004): “A imunologia
contemporânea é uma ciência biológica privilegiada pois ela
suscita e alimenta a reflexão filosófica sobre o destino do
organismo humano. Várias questões que a interessam, a
sobrevivência, a identidade, o nascimento e a morte são questões
concernentes ao mesmo tempo ao biólogo e ao filósofo”.
(…)
Nota:
Alguns trechos foram subtraídos pelo fato de o artigo ser muito
longo, sem perda de sua compreensão global.