quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A mais velha sobrevivente do holocausto morre aos 110 anos


Artigo publicado no site do Jornal TV5 Monde
Londres (AFP) 24/02/2014

Uma apaixonada por música, apresentada como a mais velha sobrevivente do Holocausto no mundo, cuja história foi tema de um documentário indicado ao Oscar este ano, morreu domingo em Londres com a idade de 110 anos, anunciou sua família.




Durante a Segunda Guerra mundial, Alice Herz-Sommer, judia originária de Praga, havia sido deportada para o campo de concentração de Terezin, hoje na República Tcheca, onde ela aliviava os sofrimentos de seus companheiros detidos tocando piano.
Segundo seu neto Ariel Sommer, “Alice Sommer morreu em paz (…) com sua família a seu lado”. “Ela nos amava, ria conosco e era muito ligada à música. Ela era uma fonte de inspiração e nosso mundo vai ficar consideravelmente empobrecido sem ela a nosso lado”, disse Ariel Sommer.
A vida de Alice Herz-Sommer, que era amiga do escritor existencialista Franz Kafka, é o assunto do filme “The Lady in Number 6: Music Saved My Life”, selecionado na categoria melhor documentário no Oscar que será entregue domingo.
Nesse filme de 38 minutos, a heroína conta sua vida e a importância da música e do riso para levar uma existência feliz.
Eu sou judia, mas Beethoven é minha religião”, explicava recentemente a centenária em um vídeo. “Eu penso em viver meus últimos dias, mas isso pouco importa porque eu tive uma existência extremamente rica. E a vida é magnífica, o amor é magnífico, a natureza e a música são magníficos. Tudo o que se vive é um presente, um presente que devemos amar e passar àqueles que amamos”, acrescentou ela.
Em um outro vídeo, ela explicava “não ter jamais odiado. O ódio conduz somente ao ódio”.
Se nós podemos tocar música, nem tudo está perdido. Ela nos conduz a uma ilha de paz, de beleza e de amor. A música é um sonho”, ela afirmava.
Em seu site na internet, Nicholas Reed, produtor de “The Lady in Number 6”, fala sobre seu filme: “As crianças do mundo inteiro se constroem com seus super-heróis. O que nós, seus pais, devemos lhes lembrar é que os documentários contam história sobre os super-heróis que são verdadeiros. Os super-heróis são baseados em pessoas extraordinárias, em pessoas reais, como Alice Herz-Sommer”.


Cerca de 140.000 Judeus foram deportados para o campo de Terezin e 33.430 dentre eles ali encontraram a morte.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Quando a história do feminismo é reescrita com Antoinette Fouque

Artigo publicado no site do Jornal Libération

22/02/2014
Por Annette LÉVY-WILLARD


Que estranho escutar, neste sábado 22 de fevereiro de 2014, as grandiloquentes homenagens a Antoinette Fouque, morta quinta-feira aos 77 anos. Sem ela, se acreditarmos no que é repetido ao longo do tempo, as francesas não seriam nem liberadas, nem independentes. Horror, sem Antoinette Fouque nós seríamos ainda, infelizes, sem o direito à contracepção, ao aborto, à paridade, assediadas sexualmente nos elevadores... ? A ministra dos Direitos das mulheres assim deu o tom: “Sua contribuição à emancipação de uma geração de francesas é imensa”, afirma sem exitar e sem moderação Najat Vallaud-Belkacem, que tem a desculpa de ter nascido dez anos após o início do movimento de mulheres na França. E é da minha geração que ela fala.


    Antoinette Fouque detestava a palavra 'feminismo'”

Obrigada! Obrigada”, twitavam, umas após as outras, as ministras que parecem dizer que elas lhe devem seus postos no governo socialista. E mesmo Valérie Trierweiller nos confia, em um tweet também, que Antoinette Fouque é, para ela, um “modelo de independência para nós todas”. E vice versa?
A história não é tão rosa quanto “A bela e grande voz do feminismo” que Najat Vallaut-Belkacem saúda, que não imagina, certamente, que Fouque detestava a palavra “feminismo”. Em sua última entrevista, no mês de fevereiro, no canal France Info, ela via no feminismo “a servidão voluntária que fazem algumas para se adaptarem à revista Elle ou a outras”. Feminismo, Beauvoir... para o lixo com a história vista por Fouque.
Na França, nós não tivemos sorte. Nós tínhamos um movimento alegre, bagunçado, excessivo, múltiplo, corrompível e não corrompível, um movimento, não uma organização política, um partido, e sobretudo, não uma marca privada, “MLF” - Movimento de Libertação das Mulheres, em francês -, registrada legalmente, em segredo, por Antoinette Fouque e suas duas amigas, para seu uso político e comercial. Uma “captação de herança”, é isso.
Quarenta e quatro anos depois que uma dezena de amigas – sem ela – colocou um ramo de flores sob o Arco do Triunfo em memória da “mulher ainda mais desconhecida do soldado desconhecido”, a vida de Antoinette Fouque é uma success story: ela construiu sua própria lenda.
No começo, portanto, na onda de maio de 68 e inspiradas pelo Women's Lib americano, as francesas também quiseram falar de sua liberação. E isso foi em 1970, chamado, desajeitadamente se pensarmos bem, de “Ano zero do movimento de liberação das mulheres”. Lembremos que nós éramos filhas e netas naturais daquela que foi, ela sim, a verdadeira inspiradora da emancipação das mulheres na França e no mundo: Simone de Beauvoir, que já havia escrito O Segundo Sexo em 1949...
Antoinette Fouque, professora e psicanalista, toma seu caminho em direção ao poder ao criar seu próprio grupo “Psicanálise e Política”. Moderna, ela compreende a força da transferência freudiana e não exita em analisar as jovens militantes que se juntam a ela. Entre elas, Sylvina Boissonnas, herdeira de uma enorme fortuna. Antoinette Fouque vive a partir de então como uma bilionária, da mansão no VIº distrito de Paris às magníficas residências na França e nos Estados Unidos, ela pôde financiar sua editora das Mulheres e suas livrarias Das Mulheres.
De dramas em psicodramas, o MLF, que se tornou propriedade comercial com a marca Fouque, se reduzirá a uma pequena seita, mas a sigla e as edições servirão para a ascensão social e política da chefinha que possuía um culto histérico a sua personalidade, contado em um artigo de Libération (“Visita ao mausoléu do MLF”, 9 de março de 1983!): “Ao sair dessa exposição sobre a história do MLF, tivemos a impressão de ter feito uma curta viagem à Coreia do Norte de Kim Il-sung.”
Antoinette Fouque fará uma carreira política sendo eleita deputada europeia com o apoio de Bernard Tapie sem que se veja muito bem a ligação entre esse homem de negócios e a emancipação das mulheres. Ela se tornará também vice-presidente da comissão das mulheres em Estrasburgo. Ela aconselha as ministras especializadas em mulheres, ela fala sobretudo em nome do MLF.

E agora, se escutamos as homenagens que repetem “A Antoinette Fouque, as francesas reconhecidas”, nós corremos o risco de esquecer a verdadeira história, o corajoso “Manifesto das 343 inescrupulosas” - do “star-system”, dirá uma Fouque com desprezo – a lei Veil sobre o aborto, os formidáveis trabalhos de historiadoras como Michelle Perrot, que acaba de receber o prêmio Simone de Beauvoir justamente. E todas as leis sobre a paridade e a igualdade. Um esquecimento passageiro.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Inscrições neonazistas, antissemitas e homofóbicas em Toulouse

Artigo publicado no site do Jornal Le Monde, com a Agence France Presse

16/02/2014
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Cruzes gamadas e inscrições antissemitas e homofóbicas foram grafitadas em vários edifícios do coração da cidade de Toulouse (França), incluindo um centro destinado aos homossexuais, um cinema e locais políticos, ficamos sabendo no domingo, 16 de fevereiro, de fontes convergentes.




Os fatos remontariam à noite de sábado para domingo, ou, para alguns, de sexta-feira para sábado. O Espaço das diversidades e da laicidade, que tem por vocação acolher as vítimas de discriminações e que abriga em particular um centro LGBT (lésbicas, gays, bi e transsexuais) foi visado, assim como o local de campanha do candidato do Partido de esquerda nas eleições municipais, o Front de esquerda, o cinema de arte e experiência Utopia, a entrada da Universidade Toulouse 1 Capitole (direito, economia, administração) e o cemitério de Salonique, informaram fontes municipais e policiais. Todos estão situados no centro, a pouca distância uns dos outros.
Um perigo para nossa República”
Por todos os lugares foram pintadas cruzes celtas, emblemas da ultra direita. As inscrições estão no CRIF (Conselho representativo das instituições judaicas), igualam judeus e homossexuais, atacam os maçons. A inscrição “Toulouse nacionalista” foi colocada na calçada diante do local do Front de esquerda. A prefeitura e o candidato do Partido de esquerda, Jean-Christophe Sellin, anunciaram ter dado queixa.
O prefeito socialista Pierre Cohen, que se preocupa regularmente com o aumento do ódio na França há aproximadamente dois anos, se disse “profundamente chocado” e apressou a polícia “para esclarecer o mais rapidamente possível esse assunto”. “Essas mensagens de ódio são um perigo para nossa República. É nossa responsabilidade não deixar que se instale esse clima nefasto com traços dos anos negros”, ele se emocionou em um comunicado.

As investigações correm o risco, entretanto, de se complicarem, pelo fato de que as vítimas se apressaram em apagar as incrições, observou um policial. Os autores são os mesmos que desfilaram no dia 26 de janeiro em Paris pedindo coletivamente um “Dia de cólera”, assegurou Myriam Martin, segunda na lista de Sellin. As degradações cometidas em Toulouse não são as primeiras, entretanto “nada foi feito” e os autores acreditam poder agir com toda impunidade, ela se indignou. “Como isso vai terminar? Poderia ser uma mesquita, uma sinagoga. Nós não queremos que isso acabe à Clément Méric”, jovem militante de extrema esquerda morto em junho de 2013 em um conflito com skinheads, ela disse.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Quem quer mal às árvores da laicidade?


Qui en veut aux arbres de la laïcité?

Artigo publicado no site do Jornal Libération

06/02/2014
Por Sylvain MOUILLARD

Há alguns meses, árvores plantadas para celebrar a lei de 1905 são decapitadas por ativistas anônimos que defendem uma França “católica” e têm como alvo a “maçonaria”.

Há alguns meses, os desenraizadores anônimos causam estragos através da França. Seus alvos: um ginkgo biloba aqui, um carvalho verde acolá. Essas árvores possuem um ponto em comum. Elas foram plantadas para celebrar a lei de 1905 de separação das Igrejas do Estado. Da cidade de Concarneau a Angers, passando por Bordeaux e Essone, os atos de vandalismo se multiplicam. Se seus autores passam, por enquanto, por entre a malha das redes policiais, suas motivações parecem claras: defesa de uma França “católica” e a rejeição da “maçonaria”.
Concarneau, comunidade do Finistério, foi um dos primeiros alvos. Em 2006, uma árvore de um ano se deteriorou. Foi substituída às pressas por um carvalho da América. “Ele cresceu, se fortaleceu, explica Pierre Bleuzen, dos amigos laicos da cidade. De repente, era mais difícil de quebrá-lo. Teria sido preciso uma serra elétrica”. Mas isso não desencoraja os desenraizadores bretões. Em dezembro de 2011, a decoração da árvore foi arrancada “com muita energia”. Uma queixa foi dada, a prefeitura aceita, sem sucesso... Um site regionalista de extrema direita, Breiz Atao, saúda a deterioração: “Em terra chouanne (insurgentes realistas das províncias do Oeste durante a Revolução), ainda existe honra entre os habitantes de Concarneau para não se deixar persuadir de um modo tão grosseiro pelas nostalgias de 1793.”

Um tag “França católica”

O fato se repete dois anos mais tarde. “Tudo que estava ao alcance das mãos desapareceu, sobretudo a decoração para a celebração do aniversário da lei de 1905: miniaturas de Marianne, uma cocarde (emblema circular com as cores azul, branco e vermelho, em tecido), uma fita tricolor”, se lembra Pierre Bleuzen. As árvores de Natal foram poupadas. Para o presidente dos amigos laicos, a ação é premeditada. O alvo é a “esfera de influência católica tradicionalista”. Esses grupos que não aceitam a laicidade saíram da total anonimidade. Eles se autorizam a tomar a palavra, e isso eles não faziam antes.”
Em Bordeaux, foram necessários apenas alguns dias para que o ginkgo biloba plantado pelo comité Gironde-Aquitaine “As árvores da laicidade” fosse cortado. A ação aconteceu na noite do 20 para o 21 de dezembro último. Os autores são sempre anônimos. Eles assinam a ação com um tag “França católica”. “Nós replantaremos, quantas vezes forem necessárias”, repete Marie-Christine Damian-Gautron, presidente do comitê.


Este movimento se sente descomplexado”

Em Boussy, o corte foi reivindicado, em um comunicado, por um movimento nomeado “Combater a Maçonaria”. Eles denunciam a “dominação de clãs maçônicos (…) refugiados, sem coragem nem dignidade, atrás da opacidade que protege suas ambições pessoais e atrás da utilização enganosa de uma laicidade pervertida”, essa obscura organização não parece ter digerido que a acácia de Boussy tenha sido plantada por iniciativa dos representantes locais do Grande Oriente da França. Um “apadrinhamento" do qual Romain Colas não se esconde: “Eu considero que a defesa da laicidade é um valor que nós temos em comum.”

Daniel Keller, grande mestre do Grande Oriente da França, reivindica a ligação de sua organização a essas cerimônias: “As árvores da laicidade são um símbolo, que podemos, aliás, ligar às árvores da liberdade da Revolução francesa.” Como ele, Romain Colas fica alarmado com a recorrência das decapitações de árvores. “É a ação de um grupo marginal extremista e ultra minoritário da sociedade francesa, mas que sempre existiu, ele estima. Esse grupo teve uma janela para se agregar à oposição ao casamento gay. Esse movimento me inquieta pois ele se sente descomplexado.”
Uma preocupação também de Frédéric Béatse, prefeito de Angers, onde os cortadores seriais atacaram em duas ocasiões. Uma primeira vez em novembro de 2013, uma segunda em dezembro. Na segunda vez, os autores deixaram uma mensagem, com um bilhete “Árvore enrolada como um bolo de carne” e as inscrições a giz contra os maçons. Para o prefeito, isso “não traduz um movimento de fundo, mas a ação de um grupo de agitados”. Ele cita sobretudo “a presença de estudantes universitários de extrema direita”. O responsável local do RED (Reunião dos estudantes de direita, um movimento extremista dissolvido em 2008) nega toda implicação, mesmo se a decapitação pareça diverti-lo.

O site “Rouge et le noir”, jornal em linha “católico e de “reinformação” saúda a ação de vandalismo: “A República ama as árvores. Ela fundou sua religião, a laicidade que nós não queremos, sobre esse emblema que está atrás das moedas de um e de dois euros”. O que não desencoraja Frédéric Béatse: “Nós replantaremos se preciso for, eles acabarão sendo pegos.”

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Hollande recebido com luxo na Casa Branca para um jantar de Estado

Artigo publicado no site da TV5 Monde

Washington (AFP) – 12.02.2014

Por Hervé ASQUIN, Tangi QUEMENER

Barack Obama e François Hollande exibiram sua identidade de pontos de vista, terça-feira, sobre as grandes questões geopolíticas e econômicas, trocando cumprimentos e testemunhos de lealdade quando de uma visita em grande pompa do presidente francês à Casa Branca.


Tratando-se por “François” e “Barack, os dois presidentes participaram de uma longa conferência de imprensa ao término de duas horas de conversa no Salão Oval, oportunidade em que foram lembrados os laços históricos entre Paris e Washington, apesar das crises pontuais.
Obama fez alusão à recusa francesa de uma intervenção no Iraque em 2003, observando que a cooperação franco-americana atual sobre os dossiês de política estrangeira teria sido “inimaginável há apenas dez anos”.
“Eu gostaria de saudar o presidente Hollande por ter feito progredir” essa cooperação, ele completou. “François, você não apenas falou com eloquência sobre a determinação da França a tomar responsabilidades como país de primeiro plano. Você também agiu. Do Mali à Síria e o Iram, você deu provas de coragem e de determinação e eu quero agradecer por sua liderança e sua estreita parceria com os Estados Unidos”.
Por sua vez, Hollande, que fazia a primeira visita de Estado de um dirigente francês aos Estados Unidos desde 1996, foi interrogado sobre um outro ponto contencioso recente entre Paris e Washington: as operações de vigilância das comunicações eletrônicas pela tentacular agência de informação NSA, reveladas pelo antigo consultor Edward Snowden.
“Existe uma confiança mútua que foi restaurada (e) que deve estar fundamentada tanto sobre o respeito de cada um de nossos países quanto sobre, igualmente, a proteção da vida privada”, assegurou o presidente francês.
Obama repetiu que “nós nos engajamos a fazer isso de maneira que nós protejamos os direitos à vida privada, não somente (…) de nossos cidadãos, mas também das pessoas que vivem no mundo inteiro”.
Os dois dirigentes disseram também estar na mesma sintonia quanto ao plano nuclear iraniano, em particular as sanções que continuam a ser aplicadas à república islâmica durante o período de acordo temporário.
- Londres ou Paris? Os dois, disse Obama -
Sobre isso, o presidente americano insistiu que as empresas estrangeiras que estão no Irã o fazem por “seus riscos e perigos”, prometendo uma “chuva de sanções” sobre aquelas que não respeitarem o embargo.
Hollande, sobre o fato de que uma delegação de 116 representantes de empresas francesas esteve em Teerã no início de fevereiro, disse ter comunicado claramente a essas firmas que “esses contatos não podiam terminar hoje em acordos comerciais” e que as sanções só seriam aumentadas em caso de “acordo definitivo”.
Sobre a economia, Obama estimou que a França, que sofre em aumentar seu crescimento, teria “feito reformas estruturais difíceis que, a meu ver, vão ajudá-la a ser mais competitiva no futuro”.
Interrogado, em vista do entendimento e da cordialidade exibidos na terça-feira, sobre a questão de saber se a França iria substituir o Reino Unido como beneficiária de uma “relação privilegiada” com os Estados Unidos, Obama se saiu bem com uma brincadeira espirituosa.
“Eu tenho duas filhas. E as duas são sem dúvida esplêndidas e maravilhosas. Eu jamais escolheria uma entre elas. E é assim que eu entendo meus extraordinários parceiros europeus. Todos dois são maravilhosos à sua maneira”, ele exclamou.
Os dois homens, que haviam viajado na véspera no Air Force One a Monticello, cidade do presidente francófilo Thomas Jefferson na Virgínia (leste), participaram no início da manhã de uma cerimônia de recepção em grande pompa, com hinos nacionais, 21 tiros de canhão, discurso e revista de tropas sobre a grama sul da Casa Branca, com um frio polar compensado por um sol brilhante.
Após a conferência de imprensa, Hollande almoçou. A terça-feira terminou com um luxuoso “jantar de Estado”, grande evento social, com cerca de 300 convidados. Michelle Obama apareceu vestindo um esplêndido vestido longo azul com bustiê preto.
Hollande deu um toque histórico a sua visita concedendo a medalha da Légion d'honneur a um dos soldados desconhecidos exumado no cemitério nacional de Arlington e condecorando seis ex-combatentes da Segunda Guerra mundial no Fort Meyer.

Ele concluirá sua visita aos Estados Unidos por uma passagem na quarta-feira pela região de São Francisco (Califórnia, oeste), onde se encontrará com diretores de empresas do “Vale do Silício”.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Imigração: os suíços desafiam a Europa



Artigo publicado no Jornal Libération
09/02/2014

50,3% dos eleitores votaram em favor do texto que reintroduz quotas de imigração em função das necessidades do país. O que pode tornar tensas as relações da Suíça com a União Europeia

O “sim” em favor do fim da “imigração de massa” e da reintrodução de quotas venceu nesse domingo na Suíça. 50,3% dos eleitores votaram em favor do texto intitulado “contra a imigração de massa”, segundo os resultados oficiais, após o fechamento dos locais de votação ao meio-dia.
A taxa de participação foi particularmente alta, atingindo 56%, ou seja, muito mais que a média de 44% habitualmente registrada na Suíça, prova de que o assunto suscitou muito interesse por parte dos eleitores suíços. O referendum, organizado por iniciativa do partido UDC (direita populista) obteve a dupla maioria requerida, ou seja, a maioria dos cantões e a maioria dos eleitores.
Para o politólogo de Genebra Pascal Sciarini, essa vitória do “sim” poderia levar “ao caos”, pois as relações entre a Suíça e a UE correm o risco de serem completamente achatadas. Esse pequeno país alpino, com oito milhões de habitantes, na realidade não faz parte da União europeia, mas é identificado por países membros da UE. Ligada a esta última por acordos bilaterais duramente negociados durante cinco anos, a Suíça aceitou abrir seu mercado de trabalho aos 500 milhões de ativos da UE.
No momento da entrada em vigor da livre circulação, que vem sendo feita progressivamente desde 2002, as autoridades haviam indicado que haveria apenas 8 000 pessoas chegando por ano no máximo. De fato, a Suíça, com sua insolente boa saúde econômica, que tranche com a crise na zona do euro, acolhe 80 000 pessoas em seu mercado de trabalho, um número que provoca a cólera do UDC.


Quotas e contingentes

Se o “sim” vence, a Suíça restabelecerá quotas e contingentes, em função de suas necessidades, para os imigrantes, um sistema com o qual ela viveu antes dos acordos bilaterais com a UE e que se traduz por muitas dificuldades administrativas, fustigadas pelos empregadores.
O governo suíço, a maioria dos partidos políticos bem como os empregadores se pronunciaram de maneira categórica pelo “não”. Segundo eles, frear, ou paralisar essa imigração, significaria o fim da prosperidade suíça. Bruxelas já indicou que se a Suíça coloca um fim no acordo de livre circulação, todos os outros acordos ligando Berna à UE seriam denunciados ipso facto1.
Os partidários do “sim”, o UDC na frente, replicam, dizendo que se trata de uma questão de soberania nacional, e que o país não deve se curvar ao “diktat” europeu. Além disso, esse partido estima que a imigração europeia em massa constatada nos últimos anos é a causa de numerosos males que a Suíça sofre, como o transporte em comum sobrecarregado, uma penúria de moradias, e paisagens desfiguradas pela concretagem com que as empresas do BTP (Edifícios e Obras Públicas) operam.
A imigração se tornou ao longo dos anos um assunto tenso na Suíça. Para responder em parte aos protestos de uma parte da população sobre esse assunto, o governo tomou ultimamente medidas destinadas a dificultar o acesso aos benefícios sociais para os novos imigrantes europeus. Em 2013, os estrangeiros representavam 23,5% (1,88 milhão de pessoas) da população na Suíça.
Antes dos acordos de livre circulação com a UE, havia aproximadamente 20% de estrangeiros na Suíça. Atualmente, desses estrangeiros, 1,25 milhão são oriundos da UE-27 ou da AELE. Os italianos e os alemães são os mais numerosos, com respectivamente 291 000 e 284 200 imigrantes. Eles são seguidos pelos portugueses (237 000) e pelos franceses (104 000). Como exemplo, no ano passado, a população do cantão de Neuchâtel cresceu 10%, uma alta devido a uma chegada em massa de imigrantes portugueses. A esses estrangeiros, é preciso juntar, segundo o UDC, os fronteiriços da região do Arco Lemânico, ao redor do lago Léman, alguns 113 000, no Tessin 60 000, assim como na região da Basileia.



1Ipso facto é uma frase latina que significa que um certo efeito é uma consequência direta da ação em causa.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Jornal Libération em conflito

Imprensa: hora da verdade para Libération, acionários e assalariados em guerra aberta

Paris (AFP) – 08.02.2014
Por Laurence BENHAMOU
Artigo publicado no site da TV5 Monde


Um grande conflito se anuncia no Jornal Libération, onde os acionários querem transformar o jornal, nascido há 40 anos, em rede social e em espaço cultura, em que o papel não seria mais a prioridade.



Os empregados descobriram sexta-feira à noite, em cólera, um breve texto dos acionários, elaborado por Bruno Ledoux, igualmente proprietário do prédio no centro de Paris, resumindo um projeto, que apareceu no jornal de sábado.
Libé (como o jornal é conhecido), fundado em 1973 por Jean-Paul Sartre, não será mais somente um editor em papel mas uma “rede social, criador de conteúdos monetizáveis, em uma grande gama de suportes multimídias”, eles escreveram. A redação se mudará e os 4 500 m2 do edifício, na rua Béranger, em pleno bairro do Marais, serão transformados pelo célebre designer Philippe Starck em “um espaço cultural e de conferência, que terá um estúdio para televisão, um estúdio para rádio, uma news room digital, um restaurante, um bar, um encubador de start-up” sob a marca “Libération”, como um café “Flore do século XXI”.
Esse anúncio inesperado perturbou os empregados, muito ligados ao espírito de seu jornal, ancorado na esquerda. As discussões que duram há meses sobre um plano de economia não tinham tratado de uma transformação tão radical, em que o jornal em papel não é mais prioridade.
Lançar esse anúncio sem aviso prévio aos sindicatos, foi a escolha provocadora de Bruno Ledoux, que com Edouard de Rotschild detém a maioria do capital. (…) Ele adverte que, sem esse projeto, é a falência certa.
“Nosso projeto é a única solução viável para Libération. Se os trabalhadores recusam, Libération não terá mais futuro”, declarou ele à AFP (Agence France Presse). “Há um momento em que é preciso que as coisas sejam ditas. Os empregados queriam um projeto, eles o têm. O papel continuará no coração do sistema, mas não será mais o sistema em si”.
(...)



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O passado cada vez mais tumultuado do sistema solar


Artigo publicado no site do jornal Le Monde
05/02/2014
Por Guillaume CANNAT


A cartografia e a classificação de mais de 100 000 asteroides em função de sua composição e de sua dimensão confirmam que os primeiros tempos do sistema solar foram extremamente caóticos.

Vai ser necessário reescrever os livros de anatomia para dar conta das recentes descobertas sobre a formação do sistema solar. Há uns doze anos, pensava-se que os planetas haviam sido formados pela agregação de grãos de poeira interestelar presentes nos restos da nebulosa que acabava de criar o Sol e que os asteroides eram resíduos dessa fase inicial que, por diversas razões, não estavam aglutinadas para formar um planeta. Estima-se que a massa de asteroides do sistema solar representa apenas um milésimo da massa da Terra, o que dá crédito a esse caráter residual. Pensava-se igualmente que, ao fim dessa fase inicial, os planetas e os pequenos corpos do sistema solar se situavam aproximadamente à mesma distância do Sol que hoje. Certamente, compreendia-se que as colisões podiam ter propulsado os asteroides ou os fragmentos de planetas longe de sua órbita inicial e que a influência gravitacional dos planetas gigantes, sobretudo a de Júpiter, havia engendrado alguns movimentos, mas isso era mais a exceção que a regra. Considerava-se globalmente que a composição dos pequenos corpos do sistema solar era testemunha da composição da nebulosa protoplanetária e das condições físicas que reinavam em sua distância do sol; de um modo geral, os pequenos corpos diferenciados, aqueles cujos elementos mais densos haviam migrado em direção ao coração, se situavam mais perto do Sol que os agregados brutos. Hoje os indícios se acumulam e contam uma outra história.

Um dos primeiros indícios foi a análise da composição de Magnya, um asteroide descoberto em 1937 e que orbita entre 360 e 580 milhões de quilômetros do sol, logo em uma região fria do sistema solar, que se revelou ser constituída de rochas basálticas que só poderiam ter sido formadas muito mais perto do jovem Sol. Em seguida, as descobertas dos asteroides que não estavam “em bom lugar” se multiplicaram. Em 2005, os pesquisadores do Observatório da Côte d'Azur propuseram um modelo, batizado de “modelo de Nice”, que explicava como a migração dos planetas gigantes tinha provocado a ejeção ou a dispersão de numerosos pequenos corpos do sistema solar. Em 2011, o modelo do “Grande Tack” vinha confirmar esse cenário para os primeiros milhões de anos do sistema solar, explicando como Júpiter poderia ter modificado a composição do disco de acreção no qual estavam ainda se formando os planetas do tipo terrestre, se aproximando rapidamente a perto de 1,5 unidade astronômica (ua) do Sol; a unidade astronômica é a distância média entre a Terra e o Sol, ou seja 150 milhões de quilômetros aproximadamente. Enfim, no correr dos últimos vinte anos, a detecção de centenas de exoplanetas gigantes quentes circulando muito perto de sua estrela levou os teóricos a desenvolver modelos de formação e de evolução dos sistemas planetários bem mais dinâmicos que contribuíram para a evolução de nossa compreensão dos primeiros tempos do nosso.
As observações relatadas em um artigo publicado em 30 de janeiro na revista Nature por Francesca DeMeo (Massachusetts Institute of Technology) e Benoît Carry (IMCCE/Observatoire de Paris/CNRS/universidade Pierre-et-Marie Curie/universidade de Lille-I) dão peso ao modelo de Nice e ao modelo do Grand Tack e trazem novas questões. Esses dois astrônomos explicam que eles estabeleceram um mapa da distribuição da composição de mais de 1000 000 asteroides do cinturão principal de uma medida superior a 5 quilômetros. Eles utilizaram as imagens da Sloan Digital Sky Survey (SDSS), uma campanha de observação sistemática do céu profundo, realizada com o telescópio de 2,5 metros da Apache Point (Novo México, Estados Unidos). As imagens da SDSS registraram mais de 100 milhões de objetos celestes, estrelas, galáxias e, certamente, asteroides do sistema solar que passavam pela área. Obtidas com vários comprimentos de onda, essas imagens lhes permitiram catalogar os asteroides em função de sua composição e de sua distância do Sol. O mapa do sistema solar que resultou daí leva a crer em um passado bem mais tumultuado que se imaginava. Os asteroides mais volumosos, mais de 50 quilômetros de diâmetro, estavam num lugar onde não se esperava encontrá-los, mas outros possuem uma divisão que desafia os modelos antigos, e a exceção parece ter se tornado a regra!
Para esses dois pesquisadores, a mistura dos asteroides no ceio do cinturão principal teria sido provavelmente provocada pelas migrações dos planetas gigantes cuja distância do Sol teria mudado de modo espetacular durante o primeiro milhão de anos de existência do sistema solar. Júpiter teria assim se aproximado a somente 1,5 unidade astronômica do Sol logo após sua formação, antes de migrar em direção a sua posição atual, cerca de 5,2 ua, ou seja, um pouco menos de 800 milhões de quilômetros do Sol. Desse modo, ele teria provocado uma mistura fenomenal dos menores corpos do sistema com as mudanças de órbitas mais importantes, as ejeções e os reagrupamentos no meio de dois cinturões de asteroides: uma, a principal, instalada entre as órbitas atuais de Marte e Júpiter, a outra, conhecida como Kuiper, se estendendo para além da órbita de Netuno. Nada ainda está claro e muitos anos de observação e de modelização serão necessários para refinar nosso conhecimento das origens do sistema solar, mas parece evidente hoje que o cinturão principal de asteroides é um verdadeiro pot-pourri da matéria do jovem sistema solar. “Desfazer esses nós é a chave para se compreender a evolução do sistema solar desde sua origem”, afirma Benoît Carry.
Fontes

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O "Beethoven japonês"


A sinfonia da impostura do “beethoven japonês”


Artigo publicado no site do jornal Libération – www.liberation.fr

05/02/2014

Por Arnaud VAULERIN (correspondente em Tóquio)



O compositor de música clássica Mamoru Samuragochi confessou, quarta-feira, que ele não era o autor de suas músicas e que ele pedia ajuda a uma mãozinha há mais de dez anos.





Ele era ovacionado por salas em pé e respeitado por músicos admirados. Sua Symphonie No. 1, Hiroshima, em homenagem às vítimas da bomba nuclear, era conhecida, comprada e saudada como “uma música que vai diretamente ao coração”, “dá esperança” e “ brilha sobre os corações solitários”. Mas Mamoru Samuragochi não era o autor. O compositor japonês de música clássica e de videogames confessou quarta-feira, por intermédio de seu advogado que preferiu ficar anônimo, que ele tinha contratado um “colaborador fantasma” para escrever suas composições há uma dezena de anos.

Apelidado de “Beethoven japonês” ou o “Beethoven moderno” em razão de sua surdês, Mamoru Samuragochi disse que ele “se arrepende profundamente, que ele é totalmente indesculpável”, declarou seu advogado. “Ele está profundamente sentido de ter traído seus fãs e decepcionado os outros. Ele está com problemas psicológicos e não é capaz de expressar corretamente seus próprios pensamentos”.

40% dos cânceres podem ser evitados


Plano câncer: “40% dos cânceres podem ser evitados”


Artigo publicado no site da TV5 Monde


Paris, 02/02/2014


Por Olivier THIBAULT






Professora de hematologia (especialista em sangue) e presidente do Instituto nacional do câncer (Inca) desde 2011, Agnès Buzyn dá uma lista das questões “humanas e sociais” do 3° Plano câncer, que será divulgado terça-feira, sublinhando que “40% dos cânceres podem ser evitados”.



Q: Quais são as principais questões do 3° Plano câncer?

R: "As questões prioritárias são humanas e sociais. Primeiramente, trata-se de reduzir no futuro o número de novos casos de câncer acentuando a prevenção e a educação dos jovens sobre a saúde. Hoje, 40% dos cânceres podem ser evitados pois estão ligados a comportamentos coletivos ou individuais sobre sobre os quais podemos agir. Em segundo lugar, trata-se de dar a todos as mesmas chances, em toda a França, de ter acesso à prevenção, às pesquisas sobre os cânceres, a tratamentos de qualidade e a inovações terapêuticas ou tecnológicas. 

Q: Que fazer diante dos custos astronômicos que os novos tratamentos contra o câncer atingem?

R: "Os custos dos tratamentos são inerentes ao custo do desenvolvimento e ao fato de que, cada vez mais, eles se dirigem a um pequeno número de pacientes identificados por anomalias moleculares próprias a seus tumores (terapias dirigidas). É conveniente levar em conta essas evoluções maiores e se engajar em uma reflexão global sobre a política do medicamento anticancerígeno sempre continuando a garantir o equilíbrio de nosso sistema de saúde. Os pacientes que sofrem de câncer solicitam um acesso seguro e mais rápido às inovações terapêuticas que é preciso escutar."

Q: É razoável querer implicar os médicos clínicos gerais no tratamento do câncer como preconizava o dr. Vernant, levando-se em consideração sua carga de trabalho importante?


 R : "A responsabilidade pelos cânceres continua uma especificidade dos estabelecimentos de tratamento autorizados, mas os pacientes não param de pedir, com razão, mais implicação de seu clínico nas decisões que lhe competem. A carga de trabalho no cotidiano e o papel central dos médicos clínicos nos diversos caminhos de tratamento de doenças crônicas tornam sua tarefa particularmente difícil. É preciso que o hospital se abra para a cidade, se esforce mais nos laços entre a equipe de tratamento do câncer e o médico, que os meios de informação e comunicação destinados ao médico sejam adaptados a seu exercício de coordenação dos tratamentos e da responsabilidade pelos doentes. Sua tarefa será provavelmente facilitada com a estruturação dos tratamentos iniciais como concebido pela estratégia nacional de saúde. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A mais bela livraria da Europa



Em Maastricht, Holanda, altar três estrelas

Artigo publicado originalmente no Jornal Libération, 23/08/2012, da série As mais belas livrarias da Europa.



Por Sabine CESSOU



Uma das mais belas livrarias da Europa, a Selexyz Dominicanen, é abrigada desde 2006 por uma antiga igreja dominicana em Maastricht, nos Países Baixos. Suas prateleiras se elevam até as abóbadas deste monumento construído no sáculo XIII. Assim que entramos na Selexyz Dominicanen, elevamos os olhos e baixamos a voz, como se a antiga igreja fosse ainda um lugar de culto. Mas eis que já se vão dois bons séculos sem que uma só missa tenha sido celebrada neste edifício construído em 1296. Desativado após a anexação francesa da Holanda sob Bonaparte, em 1796, este local majestoso serviu de estábulo, de almoxarifado, de garagem de bicicletas, de galeria e de discoteca.

Em 14 de dezembro de 2006, a primeira igreja gótica dos Países Baixos se tornou uma livraria. Um templo dedicado ao livro e ao saber, mas também à arquitetura. Sua arrumação interna, contemporânea, contrasta com o estilo gótico do edifício. Somente os nostálgicos do carnaval das crianças, que acontecia lá todo ano, reagiram um pouco no início. Mas a prefeitura deu um jeito para que a festa tradicional aconteça em outro lugar.

A cadeia de livrarias Selexys, que conta com 600 empregados nos Países Baixos, é conhecida por instalar suas lojas em lugares de caráter. Em Arnhem, sua última loja elegeu como domicílio um escritório dos Correios do século XIX. Mas sua melhor escolha se encontra incontestavelmente em Maastricht. A cidade holandesa pode se gabar de ter “a mais bela livraria do mundo”. Um cumprimento atribuído em 2008 pelo jornal britânico The Guardian.

O diretor da livraria não esconde que o altar pode chocar os visitantes italianos e poloneses, para quem cada igreja católica continua um lugar sagrado. “Do nosso ponto de vista, esses lugares são e serão sempre uma igreja, explica Ton Harmes. Nós fazemos nosso trabalho com respeito, numa certa continuidade. Os dominicanos eram conhecidos por sua missão de educação e sua modéstia. Aqui, nós vendemos os frutos de seu pensamento, sem pretensão.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O aparelho fotográfico das missões Apollo da Nasa vai a leilão


 
O aparelho fotográfico das missões Apollo da Nasa vai a leilão
 
Artigo publicado no site da TV5 Monde


Viena, 30 /01/2014



O único aparelho fotográfico da Nasa que voltou à Terra das diferentes missões Apollo sobre a Lua entre 1969 e 1972 vai a leilão em Viena dia 22 de março, indicou quinta-feira à AFP a galeria Westlich.
O aparelho fotográfico, uma caixa prateada que podia ser ligada à parte da frente do uniforme do astronauta, está estimado entre 150 000 e 200 000 euros, explicou Peter Coeln, fundador da Westlich, uma das galerias mais reputadas do mundo no domínio da fotografia.
No total, a Nasa levou quatorze aparelhos de fotografia nas missões Apollo 11 a 17, mas somente um foi trazido para a Terra, provavelmente por causa de problemas para retirar o filme depois de usado, disse à AFP Peter Coeln.
Os outros treze aparelhos, pesando cada um vários quilos, foram abandonados na Lua, para que os astronautas pudessem trazer pedras lunares, o peso sendo uma fonte de preocupação importante nas missões.
O americano Jim Irwin utilizou o aparelho Hasselblad e fez 299 fotos em três dias na Lua durante a missão Apollo 15. Esse aparelho foi colocado à venda por um colecionador italiano, que ele havia comprado de um americano.
Uma plaquinha no interior do aparelho, contend o número 38 – o mesmo que aparece nas fotos da Nasa – “é a prova a 100% que este aparelho é o verdadeiro, e que ele realmente esteve na Lua”, afirmou Peter Coeln.
A galleria Westlicht vendeu em leilão em 2012 o aparelho fotográfico mais caro do mundo, um protótipo Leica de 1923 por 2,16 milhões de euros.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A "Teoria do gênero" nas escolas francesas causa polêmica


Após o casamento gay, a Manifestação para Todos se mobiliza contra a “familifobia”


 
Artigo publicado no site do Jornal TV5 Monde
 
Paris, 02/02/2014
 
Por François BECKER e Stéphane JOURDAIN

 
Os defensores de uma visão tradicional da família, opositores da suposta “teoria do gênero”, a qual eles consideram como a “familifobia” do governo, desfilaram em grande número domingo em Paris e em Lyon: 80 000 segundo a polícia, 500 000 segundo os organizadores.
Em Lyon, eram 20 000 segundo a polícia, o dobro para os organizadores.
Em Paris, uma multidão, sob um sol radiante. Nenhum incidente foi observado ao final da tarde, no momento em que começava a dispersão do desfile.
“Nós éramos mais de meio milhão em Paris e 40 000 manifestantes em Lyon”, disse a organização da Manifestação para Todos, evocando “uma onda azul e rosa”.
Na capital, numerosas famílias se misturam a jovens vestidas de Marianne, barrete frígio na cabeça, meninos fantasiados de Gavroche, um monte de políticos e alguns padres como Philippe Blin, cura em Sèvres (Haut-de-Seine), que “sente uma luta contra as famílias”.
Muitos ostentam o nome de seus departamentos ou cidades de origem, retomando os slogans “Hollande, sua lei, nós não queremos!” ou “Peillon, demissão!”, no meio de algumas bandeiras tricolores.
De acordo com Ludovine de la Rochère, presidente de LMPT, seu movimento pertence a uma “continuidade”, mais de um ano após as manifestações contra o casamento homossexual.
(...)
Uma das reivindicações da Manifestação para todos é a retirada do ABCD da igualdade, uma experiência aplicada na escola para lutar contra os estereótipos meninas?meninos. Ela denuncia também a abertura duvidosa da procriação assistida por médicos (PMA) aos casaid de mulheres e a gestação por outro (GPA), bem como o futuro projeto de lei sobre a família, que não prevê entretanto nem PMA nem GPA.
Na praça Denfert-Rochereau, os organizadores vaiam a teoria do gênero, o ABCD da igualdade, os ministros Vincent Peillon (Educação) e Najat Vallaud-Belkacem (Direito das mulheres).
No início da tarde, doze militantes do movimento estudantil de extrema direita GUD (Grupo União Defesa) foram rapidamente interpelados por causa de “medo de que venham perturbar” a manifestação. Uma meia-dúzia de militantes filiados à direita identitária foram também interpelados, segundo uma fonte policial.
Cerca de 2 000 membros das forças da ordem asseguraram a segurança do cortejo e um helicóptero da polícia sobrevoa, segundo os jornalistas da AFP. Cinco estações de metrô foram fechadas no meio da tarde.
A Manifestação para todos insistiu em um estado de espírito “de paz e determinado” de seus militantes. Ela tinha contratado dois seguranças para garantir “o bom andamento” do evento.
Outras reuniões ocorreram paralelamente em várias cidades europeias, entre elas Madri e Varsóvia.


 

 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A Economia dos BRIC - Livro

A Economia dos BRIC. Brasil, Rússia, Índia, China. - Livro
de Andrea Goldstein e Françoise Lemoine
Edição La Découverte, Paris, 2013. 126 páginas, 10 euros

Resumo do livro publicado no Le Monde Diplomatique de dezembro de 2013, p. 25

Por André PRIOU
 
Das prateleiras de nossos supermercados às estratégias de nossas empresas, os BRIC (acrônimo de Brasil, Rússia, Índia e China - a África do Sul, que se juntou a eles, não é tratada aqui) se tornaram onipresentes: têxtil e eletrônica chinesa, agroalimentar e aeronáutica brasileiros, hidro carburantes russos e serviços numéricos indianos... Dos fatores de escala, dos recursos naturais à demografia, mas também as baixas remunerações de trabalho são também vantagens na base de sua preponderância sobre os mercados mundiais. Entretanto, esses colossos do comércio internacional têm os pés de barro: pobreza e fratura social, modelos de crescimento insuportáveis, etc. Os BRIC, que esse breve ensaio faz um retrato de contraste, são a parte emergente das economias em desenvolvimento que estão tendo acesso ao mercado mundial em um mundo multipolar. Seu lugar na governança constitui uma questão internacional maior.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Que sou eu?


A filosofia sacode a biologia



Por Nicolas CHEVASSUS-AU-LOUIS



Artigo publicado originalmente no Jornal Le Monde do dia 20 de novembro de 2013 no caderno Science & Médecine (Ciência e Medicina), p. 4.



IMUNOLOGIA



No modelo clássico do “soi” (próprio ao organismo) e do “non-soi” (adquiridos)1, o sistema imunitário protege o organismo das agressões ao reconhecer os intrusos. Mas esse paradigma está se quebrando.

Um filósofo, um físico e um biólogo propõem uma alternativa.



A manchete da revista Nature Reviews Immunology de outubro anunciava um argito assinado por um trio improvável: um filósofo, um físico e um biólogo. “Nosso artigo propõe um duplo formalismo filosófico e matemático para os dados experimentais da imunologia”, explica Eric Vivier, diretor do Centro de imunologia de Marseille-Luminy e último signatário do artigo. A chave: uma nova teoria do funcionamento do sistema imunitário alternativa àquela, hoje hegemônica, do “soi” e do “non-soi”.

Essa teoria, formulada nos anos 1940 pelo virólogo australiano Franc Macfarlane Burne (Prêmio Nobel de fisiologia e de medicina em 1960), anuncia que o sistema imunitário protege o organismo contra as agressões exteriores distinguindo no nível molecular o “soi”( as células do organismo) do “non-soi”. Entretanto, a base teórica da imunologia moderna, que encontramos exposta em todos os manuais de biologia, se parte por todo lado. Há uma quinzena de anos, os biólogos descobriram vários fenômenos que é difícil de explicar nesse quadro teórico.

O sistema imunitário pode assim atacar as células do próprio organismo. É o que se produz nas doenças autoimunes, como a diabete tipo 1. Mesmo fora de toda patologia, certos linfócitos (uma das categorias de células do sistema imunitário, eles são igualmente conhecidos sob o nome familiar de glóbulos brancos) ditos de largo espectro, são ativados por motivos bioquímicos do “soi”. Inversamente, o sistema imunitário não ataca certas células que manifestadamente fazem parte do “non-soi).

É o caso das inúmeras bactérias que vivem na superfície das mucosas (intestino, pulmão...) mas também, mais raramente, no interior do corpo, em todo organismo são. Ou então o das células trocadas, numa gestação, entre o organismo maternal e o feto. Mesmo se pouco numerosas (no máximo uma célula maternal por mil células do organismo, de acordo desmembramentos feitos em ratos de laboratório), essas células persistem durante toda a vida, tanto no organismo da criança quanto no de sua mãe, mesmo que elas não tenham o mesmo patrimônio genético e deveriam portanto ser reconhecidas como fazendo parte do “non-soi”.

Especialista em células natural killer (NK), um tipo de linfócito que ataca de maneira inata toda célula anormal, Eric Vivier se espantava, há muitos anos, com certas propriedades fora do caminho das células que ele estudava. A atividade dessas últimas é regulada pela balança entre dois fenômenos opostos.

De um lado, uma ativação, pelas moléculas presentes na superfície, seja das células estrangeiras ao corpo, seja das células do corpo modificadas por uma patologia (por exemplo porque elas se tornam tumorais). Por outro lado, uma inibição feita por outras moléculas presentes na superfície das células de um organismo saudável. Entretanto, esses efeitos, tanto ativadores como inibidores, cessam quando a estimulação, ou sua ausência, se prolonga. Tudo se passa, portanto, como se não fosse a estimulação por uma molécula mas antes de mais nada a variação no passar do tempo dessa estimulação, que inicia a atividade das células NK.

Por sua vez, Thomas Pradeu, conferencista em filosofia na Universidade Paris-Sorbonne, havia proposto em sua tese de filosofia, defendida em 2007 e, depois, publicada em francês e em inglês, uma teoria da imunidade apoiada tanto sobre a reflexão epistemológica quanto no perfeito conhecimento dos dados experimentais da imunologia: a teoria da continuidade/descontinuidade, segundo a qual uma resposta imunitária é induzida não pelo “non-soi” como tal, mas pela aparição repentina de motivos antigênicos diferentes daqueles com os quais o sistema imunitário está habituado a reagir.

O artigo de Nature Reviews Immunology nasceu do encontro desses dois caminhos intelectuais paralelos. Sua terceira assinatura, o físico especialista de modelização Sébastien Jaeger, que também trabalha no Centro de imunologia de Marseille-Luminy, veio trazer ao duo do filósofo e do imunologista a formalização matemática de sua teoria.

A resposta imunitária, sustentam os três pesquisadores, não é ativada pela exposição ao “non-soi”, mas pela variação repentina dos motivos moleculares – a descontinuidade – aos quais o sistema imunitário está exposto. Essa variação pode ser de natureza qualitativa, que é o caso quando o “non-soi” de um agente patogênico desconhecido penetra no organismo.

Mas também quantitativa, que seja no tempo (como quando as espécies bacterianas da flora intertinal passa a crescer de repente, após uso de antibióticos que eliminam as outras espécies) ou no espaço (bactérias normalmente presentes nos pulmões causam meningites quando irrompem no líquido céfalo-richidiano no qual se banha o cérebro).

“Nossa teoria da descontinuidade não vai de encontro da teoria do “soi” e do “non-soi”, mas a engloba num quadro mais largo, que permite compreender fenômenos que não se podiam explicar”, frisa Eric Vivier. Uma das virtudes da teoria da descontinuidade é mostrar as dificuldades do sistema imunitário de encarar infecções crônicas, mas também o aparecimento de tumores formados de células modificadas, que deveriam, segundo a teoria do “soi” e do “non-soi”, ser reconhecidas como estrangeiras ao corpo e destruídas.

(…)

O trio do filósofo, do físico e do biólogo reflete atualmente sobre melhores experiências para testar a validade das predições da teoria da descontinuidade.

(…)

O estudo das sutilezas moleculares dos linfócitos e dos anticorpos coloca questões caras à metafísica: o que é um indivíduo? O que funda sua unicidade? Sua identidade?

Como escreveu a médica e filósofa Anne-Marie Moulin no Dictionnaire de la pensée médicale (Edições PUF, 2004): “A imunologia contemporânea é uma ciência biológica privilegiada pois ela suscita e alimenta a reflexão filosófica sobre o destino do organismo humano. Várias questões que a interessam, a sobrevivência, a identidade, o nascimento e a morte são questões concernentes ao mesmo tempo ao biólogo e ao filósofo”.

(…)



Nota: Alguns trechos foram subtraídos pelo fato de o artigo ser muito longo, sem perda de sua compreensão global.

1Esses termos correspondem a “self” e “non-self” conforme o original da teoria em inglês.

Próximo texto: Que sou eu? A filosofia sacode a biologia.

Esse texto realmente muito interessante foi publicado no Jornal Le Monde de 20 de novembro de 2013. Estou trabalhando nele. Em breve.