quarta-feira, 26 de março de 2014

O Festival d'Avignon ameaça se mudar se o Front National ganhar as eleições


Le Festival d'Avignon menace de déménager si le FN l'emporte



Da Agence France Presse
Artigo originalmente publicado no site do Jornal Libération
24/03/2014

O diretor do festival, Olivier Py, julga “completamente inimaginável” trabalhar com uma prefeitura do Front National (FN).

Se o Front national ganhar as eleições municipais no segundo turno em Avignon, o festival não terá “nenhuma outra solução” que “partir”, afirmou seu diretor, Olivier Py, segunda-feira, no site France Info: “Eu não me vejo trabalhando com uma prefeitura do Front National. Isso me parece completamente inimaginável. Portanto, eu penso que seria preciso ir embora. Não haveria nenhuma outra solução”.
Aliás, eu não vejo como o festival poderia viver, defender suas ideias que são ideias de abertura, de acolhimento do outro. Eu não vejo como o festival poderia viver em Avignon com uma prefeitura do Front National, isso me parece inimaginável”, ele acrescentou.
(…)

Interrogado sobre o precedente dos Chorégies d'Orange que haviam recusado a subvenção da prefeitura do FN, Olivier Py respondeu: “Isso poderia ser uma solução, recusar a subvenção e que o Festival de Avignon seja unicamente nacional.” “Mas isso me parece, no caso de Avignon, tecnicamente um pouco mais difícil, pois não é somente um lugar, é toda uma cidade que se transforma em festival”, concluiu o diretor dessa grande manifestação cultural na França.
Olivier Py anunciou quinta-feira passada a programação de seu primeiro Festigal de Avignon em presença dos eleitos locais, dentre os quais a prefeita que deixa o cargo, Marie-Josée Roig. O antigo diretor do Théâtre de l'Odéon é o primeiro artisga a dirigir o festival de Avignon desde Jean Vilar, seu fundador em 1947.
O festival de Avignon, um dos maiores encontros mundiais do teatro, gera importantes ganhos econômicos para a cidade. O último estudo, em 2001, estimava ganhos de 23 milhões de euros, sem contar o “off”, que com o passar dos anos se tornou uma gigantesca manifestação festiva com cerca de 1000 companhias e mais de 1200 espetáculos. O festival dispõe de um orçamento de aproximadamente 12 milhões de euros (2013) proveniente 59% de subvenções públicas (56% do Estado, 13% da Cidade de Avignon, 13 % da Comunidade de Aglomeração da Grande Avignon, 9% do Departamento de Vaucluse, 7,6% da Região Provence-Alpes-Côte d'Azur e 1,4% da União europeia) e 41% de receitas próprias (venda de ingressos, mecenato, sociedades civis, parcerias específicas, venda de espetáculos...).

domingo, 23 de março de 2014

Sarkozy: "A França dos direitos do homem mudou muito..."


Sarkozy : «La France des droits de l’homme a bien changé...»



Artigo publicado originalmente no site do Jornal Libération
20/03/2014


    Após a publicação de partes de suas conversas com seu advogado, o ex-presidente abandona o silêncio e se dirige aos franceses através de uma carta.


Uma estreia desde sua derrota nas eleições presidenciais de maio de 2012. Dois dias após as transcrições por Mediapart das escutas das conversas entre o antigo presidente e seu advogado, Nicolas Sarkozy se dirige diretamente aos franceses através de uma carta intitulada “O que eu quero dizer aos franceses”, publicada nesta quinta-feira à noite no site Figaro.fr.




E como linha de defesa, o antigo chefe de Estado, minado por suspeitas de tráfico de influência, escolhe o ataque. “Princípios sagrados de nossa República são desprezados com uma violência inédita e uma ausência de escrúpulo sem precedente”, diz ele, e por isso sua decisão de “romper o silêncio”.
As conversas com meu advogado foram gravadas sem o menor constrangimento. O conjunto é objeto de transcrições através das quais imagina-se facilmente quem são os destinatários!”, diz Sarkozy, aliás Paul Bismuth. Ele se pergunta “o que foi feito da transcrição de (suas) conversas”.
Retomando o contra ataque de seu lado, que acusa após uma semana ter havido um complô, ele ironiza as negações de Christiane Taubira e de Manuel Valls. “Eu sei, a ministra da Justiça não sabia de nada, apesar de todos os relatórios que ela pediu e recebeu. O ministro do Interior não sabia de nada, apesar das dezenas de policiais designados somente para minha situação. De quem estamos rindo? Poderíamos rir disso tudo se não se tratasse de princípios republicanos tão fundamentais. Decididamente, a França dos direitos do homem mudou muito”.



A Alemanha do Leste e as atividades da Stasi”



Mais adiante, ele se escandaliza com este assunto que pareceria com os métodos alemães do leste. “Hoje, ainda, toda pessoa que me telefona deve saber que será escutada. Você está lendo bem. Não é um extrato do maravilhoso filme A vida dos outros sobre a Alemanha do Leste e as atividades da Stasi (…). Trata-se da França.”
O antigo chefe de Estado, que não para de deixar planar a dúvida sobre seu retorno à política diante das eleições presidenciais de 2017, desmente esta hipótese: “Contrariamente ao que se escreve quotidianamente, eu não tenho nenhum desejo de me engajar na vida política de nosso país.” Ao mesmo tempo, o ex-presidente, um tipo de comandatário da direita francesa, adverte seus adversários “que deveriam temer (seu) retorno”. Que eles estejam “certos que a melhor maneira de evitar esse retorno seria que eu possa viver minha vida simplesmente, tranquilamente... no fundo, como um cidadão 'normal'!”
Na base do caso, Sarkozy tenta defender seu advogado, Thierry Herzog, de qualquer tráfico de influência. Ele assegura que seu único “crime” é “de ter sido amigo por trinta anos de um advogado do Tribunal de Cassação, um dos mais famosos juristas da França, a quem ele pede conselhos sobre a melhor estratégia de defesa para seu cliente”, quer dizer, Sarkozy. O advogado em questão é Gilbert Azibert. Os extratos de escutas revelados por Mediapart indicam que Herzog contou várias vezes ao ex-presidente que ele obtém informações através de Azibert sobre o caso Bettencourt.



Quando Sarkozy passa da medida


Quand Sarkozy perd toute mesure

Artigo publicado no site do Jornal Libération


20/03/2014
Por Eric DECOUTY


Palavras violentas, excessivas. Em sua primeira aparição desde agosto de 2012, Nicolas Sarkozy propõe para sua defesa apenas um grito de cólera em forma de imprecação. Contra os juízes, os jornalistas, contra um poder socialista que teria criado um grande complô para abatê-lo. Mas a essa exposição oral em sua defesa, já usada por seus seguidores, o ex-presidente acrescenta um toque tão pessoal quanto grotesco. O de uma República perdida onde a polícia e a justiça teriam se transformado em uma Stasi francesa, sob a autoridade de um ditador digno da extinta Alemanha do Leste, François Hollande...


Pouco importa a pobreza de uma argumentação que convencerá apenas seus próximos. A carta de Nicolas Sarkozy guarda pelo menos dois ensinamentos. Inicialmente, o do sentimento de impunidade de um antigo chefe de Estado que se tornou um cidadão comum mas que se considera sempre acima das leis da República. Sarkozy despreza – com exceção de alguns magistrados amigos – uma instituição judiciária da qual ele mal reconhece a legitimidade. Sua missiva, pela falta de propósito, revela sobretudo o estado de um homem que sabe que a justiça passará e que sabe também que seu futuro político corre o risco de quebrar sobre a instrução da Corte.

Nicolas Sarkozy perdeu toda a serenidade, passou das medidas. É a carta de um homem que se perde, vítima de uma violência somente controlada. Não é a carta de um antigo ou de um futuro presidente.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Livro: Um ano na terra dos elefantes

Amigos desta página,

Gostaria de divulgar o livro de um amigo, Heitor Freire de Abreu, que agora está à venda na Amazon  em versão digital por R$ 7,00. Tal iniciativa visa a estimular a leitura e propiciar um valor justo pelo livro no Brasil.
Eu já li este livro, que trata da participação do autor em uma missão de paz na Costa do Marfim, e recomendo!

O endereço é:
 
 

sábado, 8 de março de 2014

Mulheres em destaque

Femmes à la une



Manifesto publicado no Jornal Libération
02/03/2014


Nós, mulheres jornalistas, denunciamos a grande invisibilidade das mulheres na mídia. Nas emissões de debate e nas colunas dos jornais, as mulheres representam apenas 18% dos experts convidados. As demais mulheres entrevistadas são quase sempre apresentadas como simples testemunhas ou vítimas, sem seu sobrenome nem sua profissão.
Nós não suportamos mais os clichês sexistas nas manchetes dos jornais. Por que reduzir ainda tanto as mulheres a objetos sexuais, donas de casa ou histéricas? Por esses desequilíbrios, a mídia participa na difusão de estereótipos sexistas. Ora, ela deveria, em vez disso, representar a sociedade em todos os níveis. Esses estereótipos são ao mesmo tempo a causa e o resultado das desigualdades profissionais, objetivos e atitudes sexistas no seio das redações, mas também da falta de sensibilização dos jornalistas quanto a esse assunto.
Nós recusamos que persistam essas desigualdades profissionais entre as mulheres e os homens nas redações. Não apenas nós somos mais tocadas pela precariedade, mas nós batemos no “teto de vidro”: mais se sobe na hierarquia das redações, menos se encontram mulheres. Mais de 7 diretores de redação em 10 são homens. Quanto aos salários, os das mulheres jornalistas continuam inferiores 12% em média aos dos homens. Essas desigualdades se refletem mecanicamente nos conteúdos da informação. Como dar credibilidade à palavra de experts quando se sofre em reconhecer as capacidades das mulheres jornalistas em dirigir redações? É o círculo vicioso que toca todas as mulheres e ainda mais – é um sofrimento duplo – as mulheres oriundas da diversidade. Para lutar contra essas desigualdades e criar as condições de uma sociedade mais justa para todos, o coletivo Prenons la une está engajado a mostrar, no dia a dia, o discurso e os estereótipos sexistas na mídia e a denunciar as desigualdades. Nós chamamos nossas irmãs e nossos irmãos em seu trabalho diário para uma justa representação da sociedade, e a constituir em sua redação uma base de dados de experts para diversificar as fontes e a torná-las paritárias, como já faz a BBC. Nós os incitamos também a vigiar para que os dirigentes da mídia apliquem a legislação sobre a igualdade profissional, começando por um diagnóstico da situação da empresa.



Além disso, nós pedimos a presença de 50% de experts mulheres nos canais de televisão, uma aplicação concreta da “justa representação de mulheres na mídia” prevista pela lei sobre a igualdade entre as mulheres e os homens (…). Nós pedimos a integração da paridade nos critérios de deontologia do futuro Conselho de imprensa e o condicionamento da atribuição de apoio à imprensa ao respeito das leis sobre a igualdade profissional. Enfim, nós propomos a criação de módulos de formação, dispensados a todos os estudantes de jornalismo, sobre a luta contra os estereótipos e a igualdade profissional. Nós chamamos todos os jornalistas, mulheres e homens, a se juntarem nesse combate pela igualdade!

sexta-feira, 7 de março de 2014

"Para os russos, a Crimeia faz parte do patrimônio nacional"

"Pour les Russes, la Crimée fait partie du patrimoine national"

Artigo publicado no site do Jornal Libération

05/03/2014
Por Cordélia BONAL


Entrevista



Emmanuelle Armadon, especialista na Ucrânia e na Crimeia no Instituto nacional de línguas e civilizações orientais (Inalco) e autora de a Crimeia entre Rússia e Ucrânia: um conflito que não aconteceu (1), retoma a história dessa península, no coração de um braço de ferro entre Kiev e Moscou.
De quando data a presença russa na Crimeia?


Na Crimeia, os russos devem sua presença à imigração. A Crimeia é um território historicamente tártaro, um povo turco-molgol, muçulmano. No século XV, o Khanat da Crimeia passa a protetorado do Império otomano. A primeira leva russa foi tentativa de Pedro, o Grande, que procura uma saída através do mar Negro. É um fracasso. A anexação da Crimeia à Rússia acontecerá em 1783, sob Catarina II, ao final de duas guerras russo-otomanas (1736-1739 e 1768-1774).
A população tártara da Crimeia diminui consideravelmente, pelas perdas de guerra e as ondas de saída em direção ao Império otomano. A partir de então, o Império russo segue ao longo de todo o século XIX uma política de repopulação. Instalam-se na Crimeia camponeses, nobres e militares. O lado Sul se transforma pouco a pouco em estada para a nobreza russa.
E depois, é a guerra da Crimeia.


Esse conflito que opõe entre 1854 e 1856 o Império russo e uma coalizão reunindo o Império otomano, o Reino Unido e a França de Napoleão, e que culminou com a tomada de Sebastopol, acaba com a derrota russa. A guerra da Crimeia provoca uma nova onda de partidas no seio da população tártara. Os tártaros da Crimeia sofrerão, um século mais tarde, em 1944, a deportação por Stalin. Após a Segunda Guerra mundial, o Império soviético faz chegar à Crimeia não apenas russos, mas também ucranianos.
Os tártaros só voltarão à Crimeia no contexto da perestroica. Entre o fim dos anos 1980 e 1994, cerca de 180 000 tártaros se reinstalam na Crimeia, o que é massivo na escala desse território de 2 milhões de habitantes. Esses tártaros se chocaram, e ainda se chocam, com estereótipos da população russa e com medidas discriminatórias. Levados nos anos 90 a se instalarem em zonas rurais pobres e sem infraestruturas, os tártaros se veem relegados. Diante disso, eles ilegalmente tomam posse de terrenos perto das cidades, o que causa, evidentemente, tensões.

Hoje, qual é a divisão étnica da Crimeia?
O último censo sobre a origem étnica da população da Crimeia data de 2001. Ele mostra a seguinte repartição: 58% das pessoas se dizem de etnia russa, 22,4% de etnia ucraniana, e 12,1% de tártaros.
Por isso a população da Crimeia quer deixar a Ucrânia e ser anexada à federação da Rússia?
A anexação à Rússia não é uma unanimidade. Segundo a pesquisa de opinião mais recente, realizada em maio de 2013, somente 23% da população da Crimeia se diz favorável a uma anexação à federação da Rússia. O resultado seria sem dúvida mais importante se fizéssemos o mesmo estudo hoje, em um contexto que desperta o sentimento de secessão. Um referendum deve acontecer em princípio no dia 30 de março. Mas eu acredito que para muitos na Crimeia, incluindo os russos, vale mais ser uma república autônoma na Ucrânia que um súdito entre outros da federação russa.


Como a Crimeia é percebida pelos russos de Moscou?
Para os russos, a Crimeia faz parte do patrimônio nacional russo. Para eles, a Crimeia é Catarina II, é o poder naval do Império russo, é Ialta, o palácio imperial, os poemas de Pushkin e os romances de Tchekov... É essa anexação que explica que a perda da Crimeia, em 1991, no momento da independência ucraniana, foi tão dificilmente vivida pelos russos. Estamos diante de uma problemática de saída do império, sem a qual não se pode compreender por que a Rússia é hoje tão irritada com a Ucrânia e a Crimeia. Para Vladimir Putin os russos e os ucranianos formam um só e um mesmo povo, com um passado e um destino comum.
Desde os anos 90 a Crimeia foi, aliás, para os russos um meio de diminuir a distância de Kiev. Cada vez que a Ucrânia tentou se emancipar, a Rússia atiçou as aspirações de separação da Crimeia e fez lembrar sua presença militar na península.


Você acredita em um conflito armado na Crimeia?


O que poderia, talvez, frear a tomada de armas, é justamente essa dificuldade que os russos têm em considerar os ucranianos como estrangeiros. Essa proximidade, os laços estreitos, às vezes familiares, que existem entre os dois povos, as famílias mistas, frequentes na Crimeia e na Ucrânia... Certos soldados ucranianos explicam que eles teriam muita dificuldade em atirar em soldados russos, e o inverso é sem dúvida verdadeiro. É nisso que a situação na Ucrânia é diferente da Geórgia em 2008: as percepções recíprocas não são as mesmas.
Em revanche, nós podemos muito bem assistir a um apodrecimento da situação. Um novo “conflito” gelado, como na Moldávia com a Transnístria. O que será também determinante é o que vai acontecer no restante das regiões do leste da Ucrânia, com forte população pró-russos. O risco, para Kiev, é o efeito dominó, a propagação das intenções separatistas em outras partes do território da Ucrânia.



(1) Editions Bruylant (De Boeck), 2012.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma em cada três mulheres é vítima de violência na Europa

Une femme sur trois victime de violences en Europe

Artigo publicado no site do Jornal Libération

05/03/2014
Agence France Presse


Um estudo da Agência europeia dos direitos fundamentais se apoia em testemunhos de 42 000 mulheres nos 28 países da União europeia.

Uma em cada três mulheres na UE foi vítima de violência física ou sexual pelo menos uma vez em sua vida desde a idade de 15 anos, segundo um estudo publicado quarta-feira pela Agência europeia dos direitos fundamentais (FRA), a maior já realizada. Isso corresponde a 62 milhões de mulheres na União europeia, enquanto que a FRA estima que uma a cada vinte mulheres foi estuprada a partir dos 15 anos.
O estudo se baseia nos testemunhos, nos 28 países da UE, de 42 000 mulheres em idade de 18 a 74 anos, recolhidos quando de entrevistas individuais realizadas frente a frente entre março e setembro de 2012. “Nós precisamos agir. Muitas mulheres sofrem na Europa!” disse o diretor da FRA, o dinamarquês Morten Kjaerum durante a apresentação do relatório. “Os números revelados pela enquete não podem e não devem simplesmente ser ignorados”, ele acrescentou em um comunicado.
As taxas de declaração mais elevadas foram reveladas nos países da Europa do Norte: na Dinamarca, mais de uma em cada duas mulheres (52%) dizem ter sido vítima de violência. Seguem a Finlândia (47%), a Suécia (46%) e a Holanda (45%). Por outro lado, os países do sul da Europa revelam as taxas mais baixas: 22% das mulheres na Espanha, em Chipre e em Malta declararam ter sido vítimas em sua vida de violência sexual ou física. Vários fatores podem explicar as diferenças entre os países, de acordo com a FRA, sobretudo uma igualdade de gêneros mais concreta que pode levar as mulheres a falar mais facilmente sobre violência e a julgá-la menos aceitável.
A FRA não dispõe de dados comparativos para notar uma evolução de comportamentos, seu estudo sendo o primeiro desta amplitude. “Eu penso que devemos repetir esse estudo a cada quatro ou cinco anos... Colocando as mesmas questões, podemos ver o que se passa”, estima Joanna Goodey, diretora do departamento Liberdades e Justiça da FRA.

A agência convoca os Estados membros da UE a ratificar a convenção do Conselho da Europa sobre a prevenção e a luta contra a violência contra as mulheres e a violência doméstica, a chamada convenção de Istambul. Atualmente, apenas a Áustria, a Itália e Portugal ratificaram essa convenção. Esses três países fizeram a coisa certa, especialmente a Áustria, onde 20% das mulheres foram vítimas de violência sexual ou física, segunda taxa mais fraca revelada pela FRA, atrás da Polônia (19%).

segunda-feira, 3 de março de 2014

Morre o cineasta Alain Resnais


Artigo publicado no Jornal Libération
02/03/2014

O cineasta morreu sábado aos 91 anos

Alain Resnais morreu sábado à noite aos 91 anos. Sabia-se que ele estava hospitalizado havia mais de uma semana e que ele não pôde comparecer ao festival de Berlin, onde seu último filme Aimer, boire et chanter (Amar, beber e cantar) foi apresentado na competição oficial.

Alain Resnais, nós conhecemos seus filmes

Alain Resnais é, junto com Jean-Luc Godard, o grande cineasta da modernidade em crise. Desde muito cedo, ele declara se prevenir da impossibilidade – após os estragos da segunda guerra mundial, os campos de concentração (sobre os quais ele trata em seu documentário Nuit et Brouillard - Noite e Bruma), a bomba nuclear (Hiroshima, mon amour) – de contar nosso mundo através dos contos cheios de causalidade, onde não entraria um irracional profundamente perturbador. Resnais dinamita os quadros narrativos, se presta a todas as experiências de montagens paralelas, de flashbacks que não existem, de modalidade de mise en scène transformando os atores em bonecos perturbados.


Fundamentalmente antinaturalista em seu amor irrefletido pelo corpo artificial”, como tão bem escreveu Louis Skorecki no Jornal Libération, Resnais explora virtuosamente as relações entre a experiência concreta, ofensiva da vida concreta e, no mesmo plano, as ações vergonhosas do imaginário, do imaterial e do artifício atravessando nossas vidas.


Ele procura sempre os filmes que não podem ser feitos”

Arnaud Desplecin, um de seus mais fervorosos admiradores, assim como Pascale Ferran, explica em uma entrevista nos Inrocks: “O que conta, é que ele não é um cineasta emburguesado. Ele é capaz de arriscar tudo a cada novo filme. Ele não se acomoda sobre nenhuma receita e jamais se esquiva da dificuldade de um assunto. Temos a impressão de que ele procura sempre os filmes que não podem ser feitos para justamente procurar a maneira de fazê-los.”
Resnais jamais se fundiu no grupo da Nouvelle Vague, do qual, entretanto, ele está próximo. Nos anos 1960, ele pertence, junto de Agnès Varda, Chris Marker, Georges Franju, Henri Colpi, Armand Gatti e Roger Leenhardt ou ainda Pierre Kast do movimento do Cinema Novo (Nouveau cinéma), assim denominado por analogia com o Romance Novo (Nouveau roman). Com Chris Marker, ele divide uma vontade dandy de não exibir muito seu nome, em ruptura com a obsessão do nome que será uma das marcas de fábrica da Política dos Autores, à la Godard-Truffaut-Rohmer-Rivette-Chabrol.
Outra particularidade de Resnais, ele não escreve seus cenários, ele os provoca sempre partindo de uma frase, de uma ideia, de um conceito, mas ele mesmo não escreve, o que é muito especial em um cinema francês onde o autor é sempre mais ou menos co-signatário do texto cenário-diálogo. O modo como, muito jovem, Resnais passa o comando a Duras em Hiroshima, mon amour, a Robbe-Grillet em L'année dernière à Marienvad, ou a Jean Cayrol por Muriel ou le temps d'un retour (sobre a guerra da Argélia) – e a maneira como ele se apropria dos scripts desses escritores – dá um aspecto singular a sua filmografia. Ele não cessará de agir assim, assimilando completamente as peças de teatro tal qual a do inglês Alan Ayckourn em Smoking/No smoking ou ainda recentemente o Eurídice de Jean Anouilh em Vous n'avez encore rien vu (Você ainda não viu nada).

(...)